Conquista do Caribe: epidemias, pactos e guerras entre europeus e nativos - Apresentação

Conquista do Caribe: epidemias, pactos e guerras entre europeus e nativos

Autor(a): Maria Cristina Bohn Martins

E-mailcrisbohn@terra.com.br

 

Apresentação

 

O  mar verde turquesa, o balanço da mata tropical sobre  a brisa, a doçura e a variedade das frutas nativas,  constituem algumas das noções que associamos comumente ao espaço caribenho. Em certa medida, ele foi de fato assim apresentado ao Velho Mundo pelo próprio Almirante Cristóvão Colombo, como forma de enaltecer seu feito (que a historiografia convencionou chamar de “o Descobrimento da América”), e desviar a atenção do fato de que ele não atingira os fabulosos reinos do Oriente e seus mercados, objetivo que esteve na origem da expedição de 1492. Logo, e de maneira muito rápida (em um quarto de século) os espanhóis percorrem  e ocupam as Antilhas,  onde criam “um mundo tenso, instável e destruidor” nas palavras de Bernard & Gruzinski. Desta forma, o  paraíso vislumbrado por Colombo, logo se converteu “em uma armadilha para os espanhóis, e em um matadouro para os índios”. (Nota 1)

Antes disto, ainda em setembro de 1493, pouco mais de seis meses depois do regresso da primeira viagem  ao que se passou a chamar de “Índias de Castela”, uma segunda frota partiu em direção ao Novo Mundo. Esta era uma frota de porte: 17 embarcações (a primeira tivera 03) levando 1500 homens, além de sementes e animais. Poucos eram fidalgos e cavalheiros, interessados em adquirir “ouro e honra” pelo valor de sua espada; a maioria encontrava-se a soldo da Coroa,  mas quase nenhum se apresentava como camponês. O destino da viagem foi La Hispaniola. (Nota 2) 

 

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Não foram encontrados sobreviventes dos  39 homens deixados na ilha em 1492, provavelmente  mortos nos enfrentamentos com os nativos da região. Outros reveses logo viriam ... A medida em que as esperanças de enriquecimento fácil se desvaneciam, o descontentamento cresceu veloz e perigosamente entre os europeus, e duas diferentes perspectivas sobre o empreendimento logo se colocaram em choque. A primeira era a de Colombo, e se baseava na tradição mercantil genovesa, projetando para as ilhas,  umas poucas feitorias-fortaleza sob os cuidados de um reduzido números de europeus.  A outra, inspirada na tradição peninsular da Guerra de Reconquista contra os mouros, implicava em operações militares para tomada e controle permanente das terras. Havia sido assim na brutal ocupação das Canárias ... Colombo e seu projeto são derrotados, o Vice-Rei é destituído de seus títulos e prerrogativas, e vence a opção de assentarem-se  colônias que produziriam  usando o  trabalho compulsório dos índios. 

A primeira riqueza cobiçada foi, sem dúvida, o ouro: trocado inicialmente (no estabelecimento de relações de aliança no que poderíamos chamar de uma “diplomacia à moda indígena”),  depois ele foi tomado pela força  e, por fim, retirado (com trabalho obrigatório dos nativos)  das areias dos rios. A ação espanhola acabou mudando a paisagem das ilhas, assim como mudou a percepção elaborada pelos europeus sobre os nativos, o que se deu na medida em que a receptividade inicial foi sendo substituída pela rejeição e recusa em continuar ajudando aos espanhóis. (Nota 3) Aquela gente descrita como dócil, inocente, bonita e saudável, começa a aparecer nos registros como selvagem e preguiçosa, dada às bebedeiras, poligamia e a uma sensualidade condenável que, por vezes, chegava a sugerir a sodomia.

A receptividade e a colaboração de certos grupos com os brancos já foi explicada, por uma historiografia eurocêntrica e interessada em valorizar as “contribuições do hispanismo”, como evidência da ingenuidade (mais tarde primitividade) e até covardia  das populações nativas. Hoje se compreendem como parte de um conjunto complexo de motivações que envolveram interesses diversos, como  cálculo político, temor, e rancor frente a outros grupos, por exemplo.

Uma distinção básica feita pelos espanhóis colocou em espectros opostos, os tainos  e arawak (mais amistosos), e os caribes, termo pelo qual se designaram os índios hostis. Os primeiros foram desaparecendo a medida em que se acentuava a pressão da colonização. Doenças infecto-contagiosas, trabalho excessivo e má nutrição foram os  vetores deste fenômeno demográfico tragicamente incomparável. A guerra aos caribes, logo qualificados de “canibais” e bravios, e a repressão das revoltas,  foram  outros agentes deste desastre. Os dados a  respeito, ainda que sejam apenas aproximados, são assombrosos e, por volta de 1517, os “naturais” da Espanhola, e das outras ilhas ocupadas, estavam já em vias de extinção.

Quando as riquezas de uma ilha se esgotavam, os espanhóis passavam à outra. Depois de Santo Domingo, vieram Cuba e Jamaica. Quando a riqueza metálica das ilhas começou a mostrar-se insuficiente aos espanhóis, eles passaram a dirigir expedições para a Terra-Firme. Antes de assentarem-se no México contudo, as ilhas viram constituírem-se  as primeiras instituições hispânicas: a primeira cidade foi Santo Domingo, o primeiro tribunal (Audiência), a primeira universidade. Nas décadas que se seguiram à chegada dos e instalação dos colonos castelhanos, foram surgindo - nas Antilhas e nas Costas da América Central – um grupo de pequenas comunidades isoladas que serviam como centros de recepção dos produtos a serem enviados para a Europa.  

 

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Nelas prosperou uma sociedade violenta, amparada na exploração do braço indígena e, depois, africano. Ao tempo em que o ouro  se esgotava, e  o continente começava a revelar suas fantásticas riquezas, as ilhas tornaram-se áreas marginais, a não ser pela sua localização estratégica para o comércio colonial da “Carrera das Índias”. Nos espaços não ocupados pelos espanhóis, logo se instalariam grupos de outsiders, como piratas e bucaneiros.   Na segunda metade do século, a introdução da economia açucareira pelos holandeses, transformaria enormemente esta situação, tema de uma outra história ... 

 

Nota 1 - Bernard C, Gruzinski S. Historia del Nuevo Mundo. Del Descubrimiento a la Conquista. La experiencia europea, 1492-1550. México, 1996, p. 219 (a tradução é minha) .  Com exceção daquele assim indicado, também os mapas apresentados neste texto foram extraídos desta obra.

Nota 2 - Uma das “Grandes Antilhas”, correspondendo às atuais República  Dominicana e Haiti.

Nota 3 - Vê-se que também os índios mudaram sua impressão sobre os europeus, que afinal também começam a parecer-lhes  cada vez menos como “hóspedes”.

 

Autora: Maria Cristina Bohn Martins - Professora dos Cursos de Graduação e Pós-Graduação em História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, UNISINOS (RS).