A conquista espiritual da América: sucesso ou fracasso? - Apresentação

A conquista espiritual da América: sucesso ou fracasso?

Autor(a): Cándida Graciela Chamorro-Argüello

E-mail: candidaarguello@ufgd.edu.br

 

Apresentação

 

O estreito vínculo entre igreja e estado colonial fez com que a conquista espiritual objetivasse nao só a conversão dos povos indígenas ao cristianismo, mas ainda sua submissão política e exploração econômica. De modo que, avaliar essa “empresa“ requer considerar o tripé que a sustentou. Sirva como exemplo a situação no Antigo Paraguai.

A primeira forma de missão para a conquista espiritual dos povos indígenas esteve a cargo de padres seculares, que trabalharam, sobretudo de forma itinerante. As chamadas “missões volantes” eram uma espécie de peregrinação apostólica de sacerdotes que, a partir dos povoados de espanhóis, se deslocavam ocasionalmente até as aldeias de índios, que serviam aos brancos, para ministrar-lhes os sacramentos. Nessa forma de evangelizar, era mínima a influência, no campo espiritual dos missionários, sobre os indígenas. Já no âmbito temporal – como testemunham, por exemplo, os jesuítas, mais tarde, - seus contatos com os indígenas, embora esporádicos, facilitavam a entrada dos outros conquistadores. Estes, além de dominar politicamente e explorar economicamente os indígenas, eram incumbidos de continuar a catequese dos grupos a ele “confiados”. A “conquista espiritual” significou definitivamente neste contexto, o “domínio sobre a força física” dos indígenas.

Observe-se, nesse sentido, como se dava esse domínio no âmbito da encomienda, instituição que devia consistir na concessão temporária de certo número de indígenas aos cuidados de um senhor, o encomendero, a quem cabia catequizar e proteger os indígenas a ele encomendados (confiados) em troca dos serviços prestados como tributo. Apesar de concebido como um dispositivo legal para apaziguar a escravidão, a instituição acabou servindo de cobertura para novas expedições armadas a fim de capturar novos indígenas, pois os já incorporados à colônia, tinham sucumbido ou já não atendiam à demanda. Nesse contexto, houve uma intensa mobilização contra o sistema, pois os indígenas perceberam que não havia fim para seus trabalhos (Cartas de Indias, 1877, p. 626). 

Sem a mão de obra indígena, a colônia começou a se desestabilizar em alguns lugares. A “conquista espiritual” iniciada pelos padres seculares, isto é, não vinculados a nenhuma Ordem religiosa, não conseguia reverter o conflito. Nesse contexto, o então governador do Paraguai, decidiu renunciar à estratégia militar que protegia a entrada dos padres nas aldeias, e apelar à persuasão religiosa. Isto é: intensificar a “conquista espiritual” com o envio de Ordens que reduzissem os “selvagens” pela pregação religiosa (Garay, 1942, p. 55-56). Com essa finalidade chegaram os franciscanos em 1580 e, menos de trinta anos depois, os jesuítas. Cada Ordem atuou de forma diferenciada. Os franciscanos tiveram uma atitude mais conciliatória entre o direito humano dos indígenas e a economia colonial, baseada na exploração do seu trabalho. Os jesuítas assumiram uma posição contrária às intenções do governo, e se converteram em opositores da escravização dos indígenas.

Essa diferença não é exterior à história colonial. Desde o início da sua presença na América, setores mais esclarecidos da igreja repudiavam as contradições da prática missionária resultante do seu vínculo com o estado, e opunham-se aos missionários que fizeram missão em estreita colaboração com o regime colonial. Bartolomé de las Casas, na Mesoamérica, foi um exemplo clássico do setor crítico da igreja. Ele iniciou uma verdadeira escola de denúncias, que fazia chegar ao rei sua voz de alarme ou sua sentença ética, contra a ganância dos conquistadores e a favor dos indígenas. Com essa mesma orientação, o jesuita Antonio Ruiz de Montoya denunciou, no âmbito da igreja e do estado colonial, os abusos cometidos contra os povos indígenas no antigo Paraguai.

Uma outra forma de repúdio da “conquista espiritual“, baseada na exploração dos povos indígenas, foi mais complexa, pois pretendia realizar com eles os ideais utópicos de uma nova humanidade. Vasco de Quiroga no México, e os jesuítas no Paraguai tentaram, por esse meio, garantir, para indígenas convertidos, povoados autônomos diretamente vinculados ao rei, evitando com isso que seus catecúmenos fossem explorados economicamente e dominados politicamente pelos colonizadores. Nas assim chamadas “reduções”, os índios deviam aprender a viver juntos, em povoados, de acordo com a “vida política (civilizada) e humana, beneficiando algodão com que se vistam” (Ruiz de Montoya, 1985, p. 34). As reduções foram concebidas como laboratórios onde se processava a conversão massiva e efetiva dos indígenas e onde se possibilitava a sua incorporação a uma sociedade sedentária e urbana. Mas elas também eram lugares de refúgio, onde eles poderiam se defender do ataque de encomenderos e bandeirantes. Seus proponentes se valeram para isso, de documentos já existentes. Havia leis que davam à Monarquia, o direito à vassalagem de indígenas convertidos ao cristianismo. No caso específico do Paraguai, os jesuítas foram incumbidos, pelas “Ordenanzas de Alfaro”, de civilizar e controlar os povoados índios, e de proteger sua população contra os maus tratos de seus encomendeiros. Cabe lembrar que nisso se diferenciavam os jesuítas do Paraguai de seus pares no Brasil, onde as missões jesuíticas apelaram à uma solução conciliatória para o dilema entre a economia colonial e o direito indígena (Monteiro, 1992, p. 487).

A ação dos jesuítas no Paraguai não foi menos política que a dos missionários seculares e os de outras Ordens religiosas. A diferença está em que sua política tinha em vista a integridade física dos indígenas. Por conta disso, tiveram que administrar não só a insatisfação e a hostilidade das autoridades temporais, mas também a dos missionários orientados pelas prioridades da colônia. O que os idealizadores das reduções não imaginaram foi que essa nova organização facilitaria o tráfico de indígenas e favoreceria a proliferação de doenças novas. A prova disso é o relativo declínio da população indígena reduzida em conseqüência dos ataques de bandeirantes e encomendeiros e das epidemias. 

Diante do exposto, a conquista espiritual foi um sucesso ou um fracasso? As comemorações dos “500 anos de descobrimento“, em 1992 e 2000 para a America Espanhola e Portuguesa, respectivamente, mostraram que também os detentores do poder hierárquico na Igreja e no Estado, assim como setores da sociedade civil, consideram um “sucesso“ a colonização das almas. Sobretudo no âmbito da Igreja Católica, a prova de que a empresa foi bem sucedida é o fato de o continente americano ter se tornado um nascedouro de fiéis, e a existência consolidada de instituções católicas européias ao longo de cinco séculos. Setores mais intelectualizados falam num “cristianismo ameríndio“, de status comparável à síntese operada no cristianismo oriental e ocidental. Esses setores tentam, com isso, dar visibilidade ao protagonismo da população indígena que transcendera sua própria cultura e religião de origem e indianizara o cristianismo. Destacando os apectos humano e ecológico, na avaliação de setores mais críticos da igreja e da sociedade civil, a conquista espiritual foi um “fracasso“, pois a implantação do cristianismo ibérico nas “Novas Terras“ implicou no despovoamente de dois continentes, África e América, e na implantação de um modelo de desenvolvimento que, além de exterminar e subjugar os povos das colônias e a natureza, força a dependência desses povos - material e simbolicamente – à Europa.