Direitos civis e contracultura nos EUA - Apresentação

Direitos civis e contracultura nos EUA

Autor(a): Sean Purdy

E-mail: sean_purdy1966@yahoo.ca

 

Apresentação

 

Segregação formal e informal, linchamento e violência policial, discriminação no emprego, na educação e nos serviços públicos, falta de direitos políticos, pobreza extrema - tudo isso caracterizava a vida de negros nos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial. Inundados com as mensagens de liberdade e prosperidade do discurso oficial e popular alimentado nessas décadas, mas não desfrutando plenamente do progresso econômico e social, negros construíram o mais importante movimento social na história dos Estados Unidos, o "movimento por direitos civis".

Essa fase da luta negra começou a chamar inicialmente a atenção com os protestos bem-sucedidos contra a segregação formal nos serviços públicos no estado sulista do Alabama em 1955 liderado pela corajosa ativista de base, Rosa Parks. Com o tempo, ampliou-se e produziu líderes como o poderoso orador Dr. Martin Luther King Junior, um pastor batista da Geórgia, que fundou a Conferência de Liderança Cristã, em 1957, para coordenar e avançar a luta por direitos baseada na "desobediência civil", uma forma de resistência pacifista, cujo pioneiro havia sido o nacionalista indiano Mahatma Gandhi. Luther King seria o mais importante líder do movimento, cultivando uma política fortemente moral e religiosa que apelava à retórica americana do valor da liberdade bem como à da justiça social bíblica. Pressionado por ativistas e simpatizantes do movimento liderado por Luther King e preocupado com os efeitos negativos das crises raciais na opinião mundial, o governo de Presidente Johnson estabeleceu vários atos legislativos, em 1964-1967, proibindo discriminação no emprego, nos serviços públicos e nas eleições. Na memória popular e jornalística e na historiografia convencional, o movimento foi limitado a essa luta respeitável e religiosa por direitos políticos formais. 

Recentemente, porém, historiadores tem se concentrado cada vez mais não só nos ganhos políticos formais, mas na diversidade do movimento negro e suas amplas e penetrantes reivindicações. Os variados grupos, organizações e pessoal que constituíram o movimento atuavam no Sul e Norte, na cidade e no campo, envolviam mulheres e homens, líderes e organizadores, diversas estratégias e táticas, e lutavam por direitos econômicos e pela dignidade social além dos direitos civis formais. A palavra liberdade era definida, nesse movimento, de forma ampla, significando igualdade, poder, reconhecimento, direitos e oportunidades. A grande manifestação de 200 mil pessoas em Washington em agosto de 1963, onde Luther King proferiu seu famoso discurso "Eu tenho um sonho", é conhecida na memória popular como a "Marcha na Washington"; de fato, foi oficialmente chamada "A Marcha Por Emprego e Liberdade" e foi organizado por diversos setores, inclusive o movimento sindical (em grande parte branco), mostrando aos amplos objetivos e as alianças construídas do movimento negro. As limitações da legislação formal, a miséria econômica contínua, a insatisfação com a política de cooptação/repressão e a influência de correntes políticas esquerdistas deram origem à segunda fase do movimento negro nos meados da década de 1960. Ativistas negros ampliaram seu discurso político, criticando não somente a discriminação racial, mas também a exploração econômica e a política internacional norte-americana. Grupos radicais de nacionalistas negros tais como os de Malcolm X e os Panteras Negras gozaram de bastante popularidade com seu cultivo da valorização da cultura afro-americana e a necessidade de estratégias e táticas radicais. Nos seus três últimos anos da vida até Luther King radicalizou, definindo transformação social em termos econômicos, combatendo a pobreza e a falta de poder inclusive entre muitos brancos, e fazendo oposição cáustica à Guerra do Vietnã (1965-1975 onde 57 mil norte americanos e 2 milhões de vietnamitas morreram). Não é surpresa ter sido assassinado em Memphis em 1968, durante uma visita de apoio a uma greve de trabalhadores negros. 

A partir dos ganhos legislativos em 1963-1964, então, o fim da discriminação econômica e da pobreza entre os negros passou a ser o principal objetivo do movimento. Luther King propôs a criação de uma legislação em favor dos pobres e introduziu a questão da "ação afirmativa para negros". Os veteranos ativistas negros A. Philip Randolph e Bayard Rustin propuseram um "Orçamento de Liberdade": US$ 100 bilhões seriam destinados em 10 anos a criar empregos e desenvolver os bairros pobres. Esta última não saiu do papel, mas serviu como uma importante reivindicação simbólica. Campanhas locais feitas por sindicatos conseguiram a implantação de alguns programas de ação afirmativa em empresas. E, finalmente, os abusos mais extremos de discriminação formal acabaram desmantelados. Outras campanhas econômicas, porém, faliram, como "O Movimento pela Liberdade em Chicago", liderado por Luther King, que enfrentou forte violência de residentes brancos e a oposição da prefeitura democrata de Richard J. Daley e não conseguiu atrair suficiente apoio entre negros. Os ganhos econômicos ficaram restritos aos programas sociais de Johnson conhecidos popularmente como a "Guerra contra a pobreza", e aos programas de "ação afirmativa" implementados por ele em 1965, que se estenderiam, em 1975, a todas as instituições que recebessem dinheiro ou fizessem negócios com o governo federal. Influenciadas pelas ações do governo federal, muitas universidades e até algumas empresas também implementaram programas de "ação afirmativa" e "sistemas de cotas" para minorias raciais e mulheres na década de 1970.

Ao final das contas, os ganhos dos movimentos negros dos anos 1960 e 1970 foram contraditórios. Havia mais rostos negros nas manifestações culturais, nos esportes profissionais e na política. Negros podiam comer em restaurantes, hospedar-se em hotéis e usar serviços públicos. No Norte e no Sul, escolas em áreas de população misturada acabaram com a política de segregação. "Ações afirmativas" e, particularmente, "cotas raciais" permitiram que mais negros ingressassem nas universidades e no funcionalismo público.

A classe média se expandiu e chegou a exercer poder político em muitas cidades grandes. Mas, como o New York Times relatou em 1977, mesmo onde negros ocupam posições de poder político, "brancos sempre retêm o poder econômico". A maioria dos negros permaneceu desproporcionalmente pobre. Desindustrialização, reestruturação econômica e políticas federais alargaram os guetos pobres, cujos residentes sofreram com moradia, educação e serviços públicos de baixa qualidade e com a violência e a ação das gangues, que brotaram da miséria econômica e do desespero social.

Essas condições, em grande parte, continuam no século XXI. Portanto, uma análise de um dos discursos de Luther King permite uma reflexão importante sobre o movimento negro nos anos 1960 e as lutas de hoje.