A relação do Hieronomita Ramón Pané sobre os costumes antigos dos índios

Conquista do Caribe: epidemias, pactos e guerras entre europeus e nativos

Autor(a): Maria Cristina Bohn Martins

E-mailcrisbohn@terra.com.br

 

A relação do Hieronomita Ramón Pané sobre os costumes antigos dos índios

 

“Eu, frei Ramón, pobre ermitão da Ordem de São Jerônimo, por ordem do ilustre senhor Almirante e vice-rei e governador das Ilhas e da Terra Firme das Índias, escrevo o que pude aprender e saber das crenças e idolatrias dos índios, e de como veneram seus deuses. Disto tratarei na presente relação”.

É desta forma que o frei Ramón Pané inicia sua famosa “Relación”,  escrita desde as Antilhas e  datada de 1498. Pané chegou ao Novo Mundo como participante da segunda expedição de Cristóvão Colombo que se dirigiu à ilha que passariam a chamar de Espanhola (depois Santo Domingo).

Sua Relação constitui-se em um esforço para, desde a perspectiva do missionário, compreender o passado religioso dos índios, tema que o ocupa preferencialmente no texto.

Ele informa:

“Cada um, ao adorar os ídolos que tem em casa, chamados por eles de cemis, observa um particular modo e superstição. Crêem que está no céu e é imortal, que ninguém pode vê-lo, que têm mãe, mas não tem princípio, e a este chamam de Yacahú Bagua Maórocoti, e a sua mãe de Atabey, Yermao, Guacar, Apito e Zuimaco, que são cinco nomes. Estes, sobre os quais escrevo são da Ilha Espanhola, porque das outras ilhas não sei coisa alguma por não tê-las visto jamais. Sabem também de onde vieram, onde tiveram origem o sol e a lua, como se fez  o mar e para onde vão os mortos. E acreditam que os mortos lhes aparecem pelos caminhos quando alguém anda sozinho, porque quando vão muito juntos, não lhes aparecem. Foram seus antepassados que os fizeram crer tudo isto porque eles não sabem ler, nem contar senão até dez. (...)”

Frei Pané  dá prosseguimento ao seu relato, oferecendo informações sobre os mitos de origem dos índios, girando estes em torno de questões, entre outras  como:

- “De que parte vieram os índios e de que modo;

- Como se separaram os homens das mulheres;

- Que Guahayona, indignado, resolveu partir, vendo que não voltavam aqueles que mandava colher [a erva chamada] digo para se lavar;

-Que depois houve mulheres outra vez na dita ilha Espanhola, que antes se chamava Haiti, e assim a chamam os habitantes dela; e a ela e as outras ilhas chamam de Bohio;

- Guahayona voltou à Cauta, de onde tirara as mulheres; (...)

- Como dizem que foi feito o mar;

- Do que pensam acerca de andarem vagando os mortos e de que maneira são e que coisas fazem: “Acreditam que há um lugar para onde vão os mortos, que se chama Coyabay, e se encontra de um lado da ilha que se chama Soraya. Dizem que o primeiro que esteve em  Coyabay foi um que se chamava Maquetaurie Guayaba que era senhor do dito Coyabay, casa e morada dos mortos”.

- Da forma que dizem que têm os mortos; 

- De onde tiram isto e quem os faz acreditarem assim: Há alguns homens, que conversam entre si, e que são chamados behiques, os quais praticam muitos enganos, como mais adiante diremos, para fazê-los crer que falam com esses (os mortos) e que sabem todos os seus atos secretos; e que quando estão doentes, lhes tiram o mal, e assim os enganam. Porque eu vi em parte com meus olhos, pois das outras coisas somente contei o que tinha ouvido de muitos, especialmente dos principais, com os quais conversei mais do que com os outros; pois esses crêem nas fábulas com maior certeza que os outros. Pois, do mesmo modo que os mouros, têm sua lei compediada em canções antigas, pelas quais se regem, como os mouros pela escritura.E quando querem cantar suas canções,  tocam certo instrumento que se chama mayohabao, que é de madeira, oco, forte e muito delgado, de um braço de comprimento e meio de largura. A parte onde se toca é feita em forma de tenazes de ferrador e  a outra parte é semelhante a uma maça, de maneira que parece uma cabaça com o pescoço comprido. E tocam este instrumento, o qual tem tanta voz que se ouve a légua e meia de distância. Ao som dele cantam as canções, que aprendem de cor; tocam-no os homens principais, que aprendem a tocá-lo desde a infância e a tocar com ele, segundo seu costume. (...).

- Das observações destes índios behiques, e como professam a medicina e ensinam as pessoas, e em suas curas medicinais muitas vezes se enganam: Todos ou a maior parte dos habitantes da ilha Espanhola têm muitos cemis de diversos tipos. Uns contêm os ossos de seu pai, de sua mãe, de seus parentes e de seus antepassados; estes são feitos de pedra ou de madeira. Desses dois tipos existem muitos; uns que falam, outros que fazem nascer as coisas que comem, outros que fazem chover e outros que fazem soprar os ventos. Nestas coisas crêem aqueles ignorantes simples que fazem aqueles ídolos ou, para falar mais corretamente, aqueles demônios, não tendo conhecimento da nossa santa fé. Quando alguém está doente, levam-lhe o behique, que é o médico de que se falou. O médico está obrigado a guardar dieta, do mesmo modo que o paciente, e fazer cara de doente (...) Também é preciso que se purgue como o enfermo; e para se purgar tomam certo pó chamado cohoba, aspirando-o pelo nariz, o qual os embriaga de tal modo que não sabem o que fazem; e assim dizem muitas coisas sem sentido, nas quais falam com os cemis, e estes lhes dizem que deles veio a doença.

- Do que dizem os behiques;

- Como alguma vez os supraditos médicos se enganaram;

- Como se vingam os parentes do morto quando conseguiram resposta pelo feitiço das bebidas;

- Como sabem o que querem daquele que queimaram e como se vingaram;;

- Como fazem e guardam cemis de madeira e de pedra;

- Do cemi de Guamorete;

- De outro cemi que se chamava Opyelguobirán, a quem tinha um homem principal, que se chamava Sabnaniobabo, que tinha muitos vassalos sob seu comando;

- De outro cemi que se chamava Guabancex;

- Do que crêem de outro cemi, que se chama Baraguabael;

- Das coisas que afirmam ter dito dois caciques principais da ilha Espanhola;

- Como partimos para o país do dito Mabiatué, isto é, eu frei Ramón, (...) e João Mateo, o primeiro que recebeu a água do santo batismo na ilha Espanhola: No segundo dia em que partimos do povoado e residência de Guarionex, para ir a outro cacique chamado Mabiatuaé, o pessoal de Guarionex edificava uma casa junto ao oratório, no qual deixamos algumas imagens ante as quais se ajoelhassem, orassem e se consolassem aos catecúmenos, os quais eram  a mãe, os irmãos e os parentes do mencionado João Mateo, o primeiro cristão, aos quais se juntaram outros sete; depois  todos os de sua casa se tornaram cristãos e se perseveraram em  seu bom propósito segundo nossa fé. De modo que toda referida família ficava para guardar o dito oratório e algumas herdades que eu lavrava o mandava lavrar. E, tendo ficado eles cuidando do dito oratório, no segundo dia, após termos partido para ir ao supradito  Mabiatué, seis homens foram ao oratório, do qual cuidavam sete dos referidos catecúmenos, e por ordem de Guarionex, lhes disseram que tomassem aquelas imagens que frei Ramón deixara ao cuidado dos sobreditos catecúmenos, as destroçassem e quebrassem, pois frei Ramón e seus companheiros tinham partido, e não sabiam quem tinha feito. Os seis criados de Guarionex foram ali e encontraram os seis rapazes que guardavam o oratório,  temendo o que depois aconteceu, e os rapazes assim doutrinados disseram que não queriam que entrassem; mas eles entraram a força, e tomaram as imagens e as levaram.

- O que sucedeu com as imagens e milagre que Deus fez para mostrar seu poder: Tendo aqueles saído do oratório, atiraram as imagens ao chão e as cobriram de terra e depois urinaram em cima (...) e tudo isto por vitupério. Ao saber disto, deixaram eles o que faziam e correram gritando para informar a dom Bartolomé Colombo, que tinha o governo no lugar do Almirante, seu irmão, que tinha ido a Castela. Este, como lugar-tenente do vice-rei e governador das ilhas, instaurou processo contra os malfeitores e, sabida a verdade, os mandou queimar publicamente. Mas, apesar disto, Guarionex e seus vassalos não se afastaram do mau propósito de matar os cristãos no dia designado para levar-lhes o tributo de ouro que pagavam.  (...) 

O primeiro que recebeu o santo batismo na ilha Espanhola foi João Mateo, (...) e depois toda sua casa, (...). E se iria mais adiante se houvesse quem os doutrinasse e lhes ensinasse a santa fé católica, e gente que os refreasse. E se alguém me perguntasse por que eu acho tão fácil este negócio,direi o que vi por experiência, e especialmente num cacique chamado Mahuabiatíbire, o qual há três anos continua com boa vontade, dizendo que quer ser cristão, e que não quer ter mais que uma mulher, embora costumem ter duas ou três, e os principais, quinze e vinte.  É isto tudo que pude saber e entender acerca dos costumes e dos ritos dos índios da Espanhola pela diligência que pus nisto (...).

O  texto em questão, aqui apresentado na forma de excertos,  encontra-se reproduzido (traduzido) na íntegra (n. 17) na obra “A Conquista Espiritual da América Espanhola” (1992) uma seleção de duzentos documentos (nota 1)  organizada sob a coordenação de Paulo Suess. 

O estudo deste documento, cujo original não se conhece,  pode contribuir para a construção, com os alunos, de uma série de conhecimentos acerca da experiência dos espanhóis nas Antilhas nos anos iniciais da Conquista/Colonização. Contudo, a oferta aos alunos de fontes primárias, tal como esta, deve oportunizar ainda, uma reflexão sobre os processos pelos quais se constrói o conhecimento histórico. Isto é, propomos que lhes seja apresentado, ainda que de forma muito simplificada,  o método de crítica historiográfica (não no seu sentido mais tradicional - isto é, sobre a autoria, autenticidade e veracidade do documento -, e sim analisando as suas condições de produção. Desta forma,  pode-se analisar com eles, como se produzem as elaborações intelectuais que o texto  guarda. 

Entre os vários temas que podem ser, a partir daí, (a) levantados, (b) aprofundados, (c) problematizados, (d) discutidos com os alunos estão:

A -  Castela e seu compromisso com a evangelização dos índios:  política imperial e política religiosa;

B - As Ordens Religiosas e sua presença nas Ilhas;

C – O que eram as “Relações”? Quais seus objetivos e seus compromissos discursivos?

D - As percepções do Frei Ramón  Pané sobre a cultura e a religião dos nativos: o que lhe chama a atenção? Ao que ele concede maior importância em suas observações?

E - Como ele percebe e julga os comportamentos religiosos dos índios? O que suas descrições/impressões  revelam (permitem conhecer?) O que elas silenciam?

F- Como ele avalia o trabalho catequético nas Ilhas?

G - Os índios e a evangelização: aceitação, hibridização ou recusa.

H – Alianças e conflitos, Trabalho e Tributo: as complexas  relações entre índios e brancos.


Nota 1 - SUESS, Paulo (Org.) . A Conquista Espiritual da América Espanhola- 200 documentos - século XVI . Petrópolis, Vozes, 1992.