Os incas e os Tahuantinsuyu - Apresentação

Os incas e os Tahuantinsuyu

Autor(a): Cristiana Bertazoni Martins 

E-mail: cbertazo@usp.br

 

Apresentação

 

Quando os Europeus chegaram ao norte do Peru em 1532, a região andina era governada pelos incas que, na época, comandavam o maior e mais extenso império das Américas que compreendia Peru, Bolívia, Equador, norte do Chile, noroeste da Argentina e parte da Colômbia. Pesquisadores estimam que em 1532 os incas governavam cerca 14 milhões de pessoas distribuídas em uma área de cerca de 2.600.000 quilômetros quadrados.

 

Tahuantinsuyu - nome do império inca em quéchua - era dividido em quatro partes ou suyus: Chinchaysuyu (noroeste do Peru e Equador), Antisuyu (parte amazônica do império), Collasuyu (atual Bolívia) e Condesuyu (costa do oceano Pacífico) e tinha Cuzco, no atual Peru, como sua capital imperial. Milhares de quilômetros de caminhos incas e o uso de lhamas como animais de carga tornavam possível a comunicação entre estas quatro regiões principais que compreendiam o império.

 

Os incas tinham o Sol (Inti) como sua divindade principal, porém adoravam também a outras entidades celestes como, por exemplo, a lua (Quilla), Vênus (Chaska), relâmpagos (Illapa), as Plêiades, entre outras. Além disso, os habitantes do Tahuantinsuyu também adoravam huacas que podiam ser um objeto ou uma montanha considerada como sagrada. Freqüentemente, os incas dos quatro cantos do império dedicavam oferendas e sacrifícios aos deuses do panteão andino. Entre os objetos mais comuns oferecidos a esses deuses estão as folhas de coca, conchas moídas (mullu) e tecidos. Por vezes, em ocasiões mais especiais como, por exemplo, eventos específicos do calendário incaico ou o falecimento do Sapa Inca, seres humanos também eram sacrificados.

 

Oficialmente, todas as etnias dominadas pelos incas deveriam adotar a língua quéchua, adorar ao Sapa Inca e ao Sol, e pagar tributos em forma de horas de trabalhos periódicos (mita). No entanto, pode-se dizer que o império inca era como um mosaico cultural em que vários e diferentes grupos étnicos adoravam ao Sapa Inca e ao Sol mas, simultaneamente, continuavam a adorar seus deuses e huacas locais e também a falar em suas línguas nativas. Apesar de imperialistas, os incas tinham uma postura relativamente flexível no que diz respeito aos costumes religiosos praticados nos quatro cantos do império e por vezes incluíam deuses locais ao panteão incaico.

 

Ao contrário de alguns povos da Mesoamérica, os incas não desenvolveram um sistema de escrita como, por exemplo, os hieróglifos Maias ou os códices Mexicas. O instrumento desenvolvido pelos incas para documentar suas histórias, fatos e dados administrativos era chamado de quipo.

 

Quipo era um aparato administrativo constituído de cordões coloridos e nós e que serviam para contabilizar objetos e também fatos históricos. Existem aproximadamente 600 quipos que sobreviveram desde a época da conquista. Infelizmente, dado as enormes diferenças entre os quipos e os meios tradicionais de pensamento e representação da escrita ocidental, o conhecimento de como se ler um quipo foi perdido. Desde tempos coloniais existe um debate se os quipos eram apenas um instrumento mnemônico ou se também constituíam uma forma de escrita. Segundo alguns pesquisadores, a complexa natureza tri-dimensional dos quipos possibilitava ao seu leitor - o khipucamayoc - uma variedade de leituras convencionais as quais não há paralelo nos sistemas lineares de leituras alfabéticas. Segundo alguns pesquisadores, o fato de que culturas são geralmente classificadas entre históricas (aquelas que usam a escrita) e pré-históricas (sem escrita), cria uma oposição entre escrita e oralidade o que não permite espaço para outras formas alternativas de representação como no caso dos quipos.

 

Glossário

 

El Dorado: Segunda esta lenda, que tem várias versões, haveria a existência de um chefe indígena que seria constantemente coberto por ouro em pó e, subseqüentemente, imerso no lago Guatavita (atual Colômbia). Acreditava-se que esse lago cobria quantidades inimagináveis de ouro.

 

Huaca: Termo quéchua usado para designar objetos ou lugares sagrados. Uma huaca pode ser uma montanha, uma nascente ou fonte de água, uma árvore uma pedra ou uma caverna.

 

Khipukamayoc: Especialista em quipos. Acredita-se que cerca de sete anos eram necessários para que um khipukamayoc aprendesse a técnica dos quipos.

Mita: Serviço incaico de trabalho periódico e rotativo;

 

Mullu: Conchas de tipo Spondylus princeps ou galeatus fragmentadas ou moídas;

 

Plêiades: aglomerado de sete estrelas da constelação de touro;

 

Suyu: Um dos quatro cantos de Tahuantinsuyu. tahua é quatro e suyu é canto.