As populações indígenas em face dos Estados Nacionais no século XIX - Documentos

As populações indígenas em face dos Estados Nacionais no século XIX

Autores: Gabriel Passetti e Gabriela Pellegrino 

E-mails: gabrielpassetti@gmail.com / gabriela.pellegrino@terra.com.br

 

Documentos

 

Peru

Manuel González Prada (1844-1918) foi um importante crítico do lugar reservado aos indígenas no Peru independente. Seus artigos foram mais tarde reunidos no livro Horas de lucha (Lima, Peisa, 1989). Em “Nuestros Indios”, texto escrito em 1904, afirmou:

“A condição do indígena pode melhorar de duas maneiras: ou o coração dos opressores se condói ao extremo de reconhecer o direito dos oprimidos, ou o ânimo dos oprimidos adquire a virilidade suficiente para corrigir os opressores. Se o índio aproveitasse em rifles e cápsulas todo o dinheiro que desperdiça em álcool ou em festas, se em um canto de sua cabana (...) escondesse uma arma, mudaria de condição, faria respeitar sua propriedade e sua vida. À violência responderia com violência, enquadrando o patrão que arrebata as lãs, o soldado que o recruta em nome do governo, o montonero que lhe rouba gado e bestas de carga.

Que não se predique ao índio humildade e resignação, mas orgulho e rebeldia. O que ganhou com trezentos ou quatrocentos anos de conformidade e paciência? A quanto menos autoridades se submeter, de maiores danos se liberta. Há um fato revelador: reina maior bem-estar nas comarcas mais distantes das grandes fazendas, desfruta-se de mais ordem e tranqüilidade nos pueblos menos freqüentados por autoridades.

Em resumo: o índio se redimirá graças a seu próprio esforço, não pela humanização dos opressores. Todo branco é, mais ou menos, um Pizarro, um Valverde ou um Areche.” (p. 220-221)

 

México:

Em Apuntes para mis hijos (Tabasco, Universidad Juárez Autónoma de Tabasco, 2003), Benito Juárez narrou a trajetória de sua vida, desde as origens no pueblo indígena em que nasceu, no estado de Oaxaca, no sul do México. Vejamos como reconstrói o princípio do caminho que o alçaria à linha de frente das reformas políticas nacionais:

 

“Em 21 de março de 1806 nasci no pueblo de San Pablo Guelatao da jurisdição de Santo Tomás Ixtlán no estado de Oaxaca. Tive a desgraça de não ter conhecido meus pais Marcelino Juárez e Brígida García, índios da raça primitiva do país, porque eu tinha apenas três anos quando morreram, tendo ficado, com minhas irmãs María Josefa e Rosa, aos cuidados de nossos avós paternos Pedro Juárez e Justa López, índios também da nação zapoteca. (...) Poucos anos depois morreram meus avós; minha irmã Josefa casou-se com Tiburcio López do pueblo Santa María Yahuiche; minha irmã Rosa casou-se com José Jiménez do pueblo de Ixtlán e eu fiquei sob tutela de meu tio Bernardino Juárez (...).

Como meus pais não me deixaram nenhum patrimônio e meu tio vivia de seu trabalho pessoal, logo que tive uso da razão me dediquei, até onde minha tenra idade permitia, aos trabalhos do campo. Em alguns momentos desocupados meu tio me ensinava a ler, explicando-se quão útil e conveniente era saber o idioma castelhano e, como então era extremamente difícil para as pessoas pobres e especialmente para a classe indígena adotar outra carreira científica que não fosse a eclesiástica, manifestando seu desejo de que eu estudasse para me ordenar. Essas manifestações e os exemplos que me prestavam alguns de meus conterrâneos que sabiam ler, escrever e falar a língua castelhana, e de outros que exerciam o ministério sacerdotal, despertaram em mim um desejo veemente de aprender, ao ponto de que quando meu tio me chamava para me tomar a lição eu mesmo pedia que me castigasse quando não a sabia; mas as ocupações de meu tio e minha dedicação ao trabalho diário do campo contrariavam meu desejo e de muito pouco ou de nada adiantavam as minhas lições. Além disso, em um pueblo pequeno como o meu, que apenas contava com vinte famílias, e em uma época em que tão pouco ou nada se cuidava da educação da juventude, não havia escola, nem sequer se falava em língua espanhola, os pais que podiam custear a educação de seus filhos os levavam a Oaxaca para este fim, e os que não tinham a possibilidade de pagar a pensão correspondente os levavam para servir nas casas particulares com a condição de que lhes fosse ensinado a ler e a escrever. Este era o único meio de educação que geralmente se adotava não só em meu pueblo mas em todo distrito de Ixtlán, de maneira que era notável naquela época que a maior parte dos serventes das casas da cidade eram jovens de ambos os sexos daquele distrito. Então, mais por esses fatos que eu percebia do que por uma reflexão madura de que ainda não era capaz, formei a crença de que só se fosse à cidade poderia aprender, e de fato insisti muitas vezes com meu tio para que me levasse à capital; mas seja pelo carinho que me tinha ou por qualquer outro motivo, não se decidia e apenas me dava esperanças de que algum dia me levaria.

Por outro lado, eu também sentia repugnância de separar-me dele, deixar a casa que havia amparado minha infância e minha orfandade, e abandonar meus ternos companheiros de infância com quem sempre se contraem relações e simpatias profundas que a ausência lastima martelando o coração. Era cruel a luta que existia entre esses sentimentos e meu desejo de ir a outra sociedade, nova e desconhecida para mim, para buscar minha educação. Contudo, o desejo foi superior ao sentimento e no dia 17 de dezembro de 1818, aos doze anos de idade, fugi de minha casa e caminhei até a cidade de Oaxaca, onde cheguei na noite do mesmo dia, alojando-me na casa de dom Antonio Maza, na qual minha irmã Josefa servia como cozinheira. Nos primeiros dias me dediquei a trabalhar no cuidado da grana,[1]ganhando dois reais diários para a minha subsistência enquanto procurava uma casa onde servir. Vivia então na cidade um homem piedoso e muito honrado que exercia o ofício de encadernador e colador de livros. Vestia o hábito da Ordem Terceira de São Francisco e, embora fosse muito dedicado à devoção e às práticas religiosas, era bastante despreocupado e amigo da educação da juventude. As obras de Feijoo e as epístolas de São Paulo eram seus livros favoritos de leitura. Este homem chamava-se Antonio Salanueva, o qual me recebeu em sua casa oferecendo enviar-me à escola para que aprendesse a ler e a escrever. Deste modo estabeleci-me em Oaxaca em 7 de janeiro de 1819.”  (p. 27-30)



[1] Grana cochinilla era um inseto do qual se extraía uma tinta cor de café característica dos documentos manuscritos do estado de Oaxaca.