Leyenda Negra e Leyenda Branca

Conquista do Caribe: epidemias, pactos e guerras entre europeus e nativos

Autor(a): Maria Cristina Bohn Martins

E-mailcrisbohn@terra.com.br

 

Leyenda Negra e Leyenda Branca

 

Talvez nenhum outro livro tenha contribuído de maneira tão acentuada para construir a imagem mais corrente que temos acerca da Conquista e Colonização da América Espanhola, quanto a Brevíssima relação da destruição das Índias.  O texto, de autoria do frei Bartolomeu de las Casas (impresso pela primeira vez em 1552) expressava o  desacordo do religioso com a forma pela qual se encaminhavam as tentativas de fazerem ingressar os índios  (pela violência) na cristandade.

Os espanhóis, com seus cavalos, suas espadas e lanças começaram a praticar  crueldades estranhas; entravam nas vilas, burgos e aldeias, não poupando nem as crianças e os homens velhos, nem as mulheres grávidas e parturientes e lhes abriam o ventre e as faziam em pedaços como se estivessem golpeando cordeiros fechados em seu redil. Faziam apostas sobre quem, de um só golpe de espada, fenderia e abriria um homem pela metade, ou quem, mais habilmente e mais destramente, de um só golpe lhe cortaria a cabeça, ou ainda sobre quem abriria as entranhas de um homem de um só golpe. Arrancavam os filhos dos seios da mãe e lhes esfregavam a cabeça contra os rochedos [...] Faziam certas forcas longas e baixas, de modo que os pés tocavam quase a terra, um para cada treze, em honra e reverência de Nosso Senhor e de seus doze Apóstolos (como diziam) e deitandolhes fogo, queimavam vivos todos os que ali estavam presos. Outros, a quem quiseram deixar vivos, cortaram-lhes as duas mãos e assim os deixavam. (Nota 1)

Nascido em Sevilha, em 1484, Bartolomé de Las Casas viajou pela primeira vez para a América em 1502, em companhia do então nomeado governador de Santo Domingo, Nicolas de Ovando. Como outros espanhóis, ele  valeu-se do trabalho indígena até 1514 quando,  após ouvir um sermão -  intitulado Sou uma voz que clama no deserto - do padre dominicano Antônio de Montesinos, na Ilha Espanhola,  foi tocado pelo arrependimento. Em sua prédica, Montesinos alertava aos espanhóis que eles teriam que responder perante Deus pelos pecados realizados no Novo Mundo, particularmente no que concernia aos maus-tratos dispensados aos indígenas. 

Como “defensor dos índios” passou a interceder em favor destes diante da Coroa e das autoridades espanholas. Las Casas travou ainda  um  forte debate  público  com Juan Ginés de Sepúlveda entre 1550-1551, em que procurou  provar que a proposição de Aristóteles de que alguns homens eram escravos por natureza, não se aplicava aos nativos americanos. Sua  Brevíssima, de enorme força retórica, ajudou a criar e sustentar a onda de indignação européia contra a violência dos conquistadores/colonizadores espanhóis, assim como a sua responsabilização pela destruição de grande parte das populações e das culturas nativas. 

Atravessando o Atlântico, a Leyenda Negra encontrou espaço para proliferar em meio as disputas religiosas do século XVI e ao  medo inspirado pelo poderio da Armada Espanhola. As idéias assim difundidas forneceram elementos para consolidar um forte sentimento antiespanhol em regiões que se encontravam sob o domínio do Império, como os Países Baixos, bem como entre ingleses, alemães e franceses. A vulgarização desta crítica pode ser percebida através de diversos tipos de discursos, encontráveis tanto na literatura ficcional, como em tratados políticos, jornais e panfletos, discursos de políticos, militares e intelectuais. De outra parte, não raro a descrição dos supostos horrores da colonização espanhola serviu de instrumento retórico para, por comparação, elogiar a "ordem" e "justiça" da colonização inglesa.

Assim como a expressão escrita mais sólida da Legenda Negra  é aquela de autoria de Las Casas, imageticamente costumamos associá-la às gravuras produzidas pelo flamengo Theodor de Bry  (1528 – 1598), muitas delas, como as que se seguem, inspiradas em passagens da Brevíssima.

 



SUGESTÕES  DE ATIVIDADE:

I - A edição em português da principal obra de Las Casas, “O Paraíso Destruído” (nota 2)  é de fácil acesso, e sua carga dramática contribui para estimular a leitura entre os estudantes.  A partir deste documento é possível problematizar com os alunos temas como:

A – A imagem dos índios construída por Las Casas e suas repercussões ainda na atualidade;

B – A imagem da conquista/colonização espanhola construída  a partir dos textos de Las Casas, e suas repercussões na historiografia;

C – A “legenda branca”: uma resposta para valorizar a cultura hispânica, e suas repercussões na historiografia.

D – A força das representações de Las Casas na cultura contemporânea: discussão do filme “1492: A Conquista do Paraíso”.


Nota 1 - LAS CASAS, Bartolomé de. O paraíso destruído: brevíssima relação da destruição das Índias. 6. ed. Porto Alegre: L&PM, 1996, p. 30. Um bom exemplo da tradição historiográfica que se vale desta Legenda Negra é: o genocídio na América Espanhola, ver LEÓN PORTILLA, Miguel. A visão dos vencidos: a tragédia da conquista narrada pelos astecas. Tradução de Carlos Urbin e Jacques Wainberg. Porto Alegre: L&PM, 1985.

Nota 2 - LAS CASAS, Frei Bartolomé de. O Paraíso Destruído: a sangrenta história da conquista da América. Porto Alegre: L&PM, 2001.