Dossiê História das Relações Internacionais nas Américas - Revista Eletrônica da ANPHLAC

 

Caros colegas,

 
A Revista Eletrônica da ANPHLAC (ISSN 1679-1061) publicou, em seu número 15, o dossiê História das Relações Internacionais nas Américas.
 
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Atenciosamente,
Conselho Editorial da Revista Eletrônica da ANPHLAC
 
 

Apresentação

Prof. Dr. Gabriel Passetti [1]

Profa. Dra. Tereza Maria Spyer Dulci[2]

           

A história das relações internacionais nas Américas referencia os artigos publicados neste dossiê da Revista Eletrônica da ANPHLAC. A publicação demonstra como a área vem ampliando seu foco e fontes, problematizando saberes estabelecidos e os limites anteriormente impostos por um entendimento restrito sobre o internacional, seus atores e forças.

As pesquisas aqui publicadas expressam as múltiplas aberturas à pesquisa em História das Relações Internacionais, apresentando as ações e reflexões não apenas de diplomatas, militares e políticos, mas também de que maneira intelectuais, turistas, escravos e indígenas perceberam, compreenderam e se apropriaram dos embates internacionais. As fontes são diversificadas: de relatos de viagens e documentos oficiais de chancelarias a guias turísticos e o cinema, os pesquisadores reunidos neste dossiê apresentam uma ampla gama de análises possíveis para as relações internacionais.

As atuações internacionais de dois países dominam os artigos do dossiê, por suas próprias forças no sistema internacional americano: o Brasil e os Estados Unidos. As pesquisas aqui apresentadas oferecem um mapeamento das transformações nas formas de atuação desses dois importantes atores internacionais, suas estratégias de atuação e como procuraram construir suas zonas de influência.

Os dois primeiros artigos do dossiê versam sobre as relações entre o Brasil e a Bolívia, nas décadas de 1820 a 1870, tendo como foco específico as preocupações das chancelarias dos dois Estados quanto à definição de fronteiras e limites e a compreensão das profundas diferenças entre os regimes de governo em ambos os Estados por populações alijadas do jogo político tradicional – indígenas e escravos.

Em Representantes de governo, povos indígenas e outros atores na zona fronteiriça de Bolívia e Brasil – 1825-1879, Ernesto Cerveira Sena apresenta as negociações formais entre os dois Estados e as relações entre populações habitantes de regiões fronteiriças – especialmente indígenas – com as autoridades centrais de Estados em formação e consolidação, que pretendiam delimitar fronteiras, definir cidadanias e submissões.

A noção de fronteira e soberania foi explorada por indivíduos e grupos que reconheciam melhores oportunidades, em um lado ou outro da linha imaginada nas capitais. Esse é o tema central de Os casos de fuga internacional de escravos e a atuação da chancelaria brasileira: as negociações com a República da Bolívia entre 1829 e 1870, artigo em que Newman di Carlo Caldeira apresenta de que maneira as informações sobre um regime de governo republicano, em que a escravidão era proibida, levaram uma série de cativos brasileiros a construírem uma rede de fuga para o país vizinho. Também são exploradas as pressões diplomáticas brasileiras e as estratégias adotadas pelos bolivianos para receber esses indivíduos.

Tendo ainda atuação brasileira na América do Sul como foco, Daniel Rei Coronato procura analisar, em A política externa das duas últimas décadas do império brasileiro, as tendências mestras desenvolvidas no período de decadência do regime monárquico, apresentando a conjunção entre ações de distensão, em especial no Prata, associadas com outras, universalistas, em especial as do pan-americanismo.

Os debates em torno dessa última política, a construção de organizações internacionais e suas repercussões na consolidação de imagens dos países estão em uma série de artigos. Em Pan-americanismo e política externa do Brasil no final do Império e começo da República: uma leitura a partir de Salvador de Mendonça, Américo Alves de Lyra Júnior analisa a atuação desse diplomata, chefe da delegação brasileira na Primeira Conferência Pan-Americana, suas relações com a mudança de regime político no Brasil e com os esforços dos governos imperial e republicano para a construção de suas imagens no exterior.

O turismo como vetor das relações Brasil-Argentina nas primeiras décadas do século XX, de Valéria Lima Guimarães, apresenta um lado pouco explorado do pan-americanismo e das relações internacionais, o dos incentivos governamentais à disseminação do turismo continental. Esse artigo apresenta a formação de associações, sociedades e clubes turísticos aos interesses econômicos, culturais e estratégicos vinculados à disseminação do ideário pan-americanista e ao universalismo ocidental.

Las organizaciones internacionales y América: posiciones y posibilidades en las relaciones internacionales en las Américas en las primeras décadas del siglo XX, de Norberto O. Ferreras, apresenta a construção das organizações internacionais americanas como estratégia ativa na consolidação de uma diplomacia regional, pautada pela negociação e não pelo conflito bélico internacional, tendo como foco especial nos tensos anos 1930.

Esse mesmo período é analisado por Mateus Fávaro Reis, para um caso específico, em Latino-americanismo e pan-americanismo no Uruguai do entreguerras: entre utopias e distopias. Essa análise dos debates entre três intelectuais uruguaios demonstra a disseminação local dos discursos de integração, os grupos que os defendiam, seus detratores e os projetos alternativos construídos, em especial aqueles em oposição à presença dos Estados Unidos.

As ideias em torno integração e cooperação também se fazem presentes em Construção da confiança na América Latina: do Grupo de Contadora ao Grupo do Rio (1983-1990), de Eliel Waldvogel Cardoso. Esse artigo apresenta como a década de 1980 marcou uma nova postura latino-americana, com seguidos governos se afastando da influência dos Estados Unidos, no momento de crise da lógica da Guerra Fria. Nesse sentido, apresenta a formação de grupos de países latino-americanos focados na construção de uma confiança comum para o reestabelecimento da paz e da cooperação.

Três artigos versam sobre a política externa dos Estados Unidos. A partir do relato de viagens de um comandante da Marinha de Guerra, na metade do século XIX, Marília Arantes Silva Moreira analisa as Expectativas e impasses dos sulistas norte-americanos no estuário do Prata: a questão da navegação dos rios e a viagem do comandante da U. S. Navy – Thomas Jefferson Page (1853-1860). O artigo apresenta as relações entre o discurso científico e o estratégico e as disputas internas no governo e na marinha daquele país, no financiamento de expedições de mapeamento. Também são apresentadas as referências ao Direito Internacional e as contestações por parte dos países da América do Sul, desinteressados e receosos do discurso da liberdade de navegação dos rios vindo dos Estados Unidos.

Em As relações Estados Unidos-Arábia Saudita e a questão palestina (1945-1948), Luiz Salgado Neto apresenta a potência americana em uma nova fase de sua política externa, não mais interessada apenas na América do Sul, mas se colocando como potência global no imediato pós-Segunda Guerra. O artigo discute os novos problemas enfrentados pelos EUA, na tensa relação entre compor política interna e política externa, associando sionismo e interesses econômico-estratégicos no Oriente Médio.

Já consolidado como potência ocidental, os Estados Unidos tiveram, em sua indústria cinematográfica, um importante amparo para a construção e defesa de práticas de política externa. Flávio Vilas-Bôas Trovão, em O cinema é a arma do negócio: uma análise histórica do filme Iwo Jima, o portal da glória no início da Guerra Fria, apresenta as relações entre as indústrias cinematográfica e bélica, na disseminação de um modelo de sociedade específico, relacionado a uma política externa agressiva e à construção da ideia de um novo lugar para os Estados Unidos no mundo e nas relações internacionais.

O presente dossiê ainda inclui duas resenhas, a primeira do livro Guerreros civilizadores: política, sociedad y cultura en Chile durante la Guerra del Pacífico e  a segunda da obra Costumbrismo, hispanismo e caráter nacional em “Las mujeres españolas, portuguesas y americanas”: imagens, textos e política nos anos 1870.

A publicação desses onze artigos e duas resenhas não seria possível sem a preciosa e dedicada leitura do grupo de pareceristas da Revista Eletrônica da ANPHLAC, ao qual agradecemos, que ofereceu atentas avaliações ao extenso material recebido. O cuidadoso e eficiente trabalho de revisão, a cargo de Dayse Ventura Arosa, em muito contribuiu para a finalização do material.

Com este dossiê a respeito da História das Relações Internacionais nas Américas, pretende-se contribuir para a divulgação de recentes pesquisas na área e para o aprofundamento das discussões teórico-metodológicas pertinentes.

 


[1] Professor de História das Relações Internacionais – Instituto de Estudos Estratégicos – Universidade Federal Fluminense (UFF), Brasil. E-mail gabrielpassetti@id.uff.br

[2] Professora de História das Relações Internacionais – Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), Brasil. E-mail terezaspyer@gmail.com