O sul da América do Sul: guaranis, mapuches e outros povos - Apresentação

O sul da América do Sul: guaranis, mapuches e outros povos

Autor(a): Maria Cristina Bohn Martins

E-mail: crisbohn@terra.com.br

 

Apresentação

 

É comum dividirem-se as populações indígenas da América do Sul, dos tempos anteriores à Conquista européia, em dois conjuntos: os das “terras altas”, isto é, dos Andes, e os das “terras baixas”. Os primeiros, os índios andinos, tiveram suas práticas (econômicas, políticas, sociais ou culturais) relativamente documentadas por “soldados”, missionários ou administradores vindos da metrópole. O fato de terem sido percebidos sob o “manto do incário”, isto é, do Tawantinsuyu (como costumamos chamar o “Império Inca”), acaba, porém, esmaecendo as peculiaridades de vários destes grupos étnicos.

Ainda mais difícil é traçar um quadro dos grupos que habitavam as porções mais meridionais da América antes do contato com o Ocidente europeu, visto serem sociedades muito diversas, cuja personalidade e história deveriam tornar impossível confundi-las umas com as outras. Pertencentes a inúmeros e diversos grupos étnicos, muitas vezes em nomes que nos soam estranhíssimos, eles, de fato, desconheciam seu pertencimento às entidades generalizantes pelas quais passaram a ser nomeados, isto é: guaranis, tobas, guaicurus, chiquitanos, pampas, diaguitas, tehuelches, ou outros.

Assim como a demografia, suas práticas rituais e econômicas, suas estratégias de territorialidade, bem como as formas de relacionamento – dentro dos grupos e entre os grupos –, eram fatores de diferenciação que mesmo os primeiros observadores ocidentais puderam perceber.

Os guaranis, por exemplo, formavam parte da grande família lingüística tupi-guarani que se estendia do Amazonas ao delta do Rio da Prata (ver mapa 2). É claro que existiam diferenças entre os diversos grupos que a compunham, mas elas são de difícil avaliação, ao menos até onde nos permitem perceber os estudos arqueológicos atualmente existentes.

Enquanto os tupis ocupavam a parte média e inferior da bacia amazônica e grande parte do litoral atlântico, do Amazonas até Cananéia, desde aí até o RS, incluindo os vales dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai, estavam os guaranis. Seu limite ao sul ficava um pouco mais ao sul do delta do Rio da Prata, com um grupo conhecido como "guaranis das ilhas". Explorando ecossistemas ricos e variados, estes grupos alcançaram elevados patamares demográficos e uma economia bastante eficiente. Ao menos é isto o que faz parecer os registros históricos cunhados nos momentos iniciais da presença européia na área, tal como a “História Verdadeira de uma navegação que fez Ulrico Schmidl, natural de Straubing, durante os anos de 1534-1554 para as Indias”, e os “Comentários” do governador espanhol Alvar Nuñez Cabeza de Vaca, redigidos por seu secretário, Pero Hernández, em 1555. O relato de Cabeza de Vaca, ao descrever sua jornada (ver mapa 2), traz importantes informações sobre territórios pertencentes a diferentes grupos guaranis. Revela um importante conjunto de dados, por exemplo, não apenas sobre a expansão da ocupação territorial destes índios, como também sobre a divisão política entre esses diversos grupos de mesma matriz cultural, organizados em  aldeias sob a liderança de caciques que controlavam certas porções bem definidas de territórios.

Por sua vez, no chamado Gran Chaco, a extensa planície inundável localizada no coração da América do Sul e que  se estende por territórios que atualmente pertencem às  repúblicas da  Argentina, Bolívia, Paraguai e do Brasil, encontramos um grande número de outras famílias lingüísticas.  Além do guarani, falado pelos chiriguanos, há guaycuru  (compreendendo diversos grupos étnicos como os tobas, mocobies, abipones, mbayas, caduveus e payaguás), o mataco  (falado pelos matacos, mataguayos e  tonocotés) e o vilela  (entre os  vilelas, os lules e os chunupis).

A maior parte das sociedades chaquenhas experimentava um padrão de assentamento que variava entre o nomadismo (com os caçadores-coletores acompanhando a alternância entre a época das cheias e os fortes períodos de seca), e o semi-nomadismo dos cultivadores. A atividade coletora – de mel e frutas diversas – era extremamente importante e, mesmo entre estes últimos, compunha parte essencial da dieta.

Um quadro da complexidade da ocupação humana na área nos chega através dos registros dos primeiros conquistadores espanhóis que, especialmente desde a fundação de Buenos Aires (1536) e de Nuestra Señora de la Asunción (1537), passaram a incursionar  por estas áreas em busca de riquezas minerais. Assim, os registros dos já nomeados Schmidl e Cabeza de Vaca são talvez os importantes meios para o conhecimento das variadas e singulares sociedades que habitavam a área. Seguindo seus passos, podemos recolher impressões sobre um grande conjunto de povos do Chaco, muitos deles completamente desaparecidos: os agaces (ou paiaguas), os guaicurus, os tobas, os chanés, os timbus, entre outros.

O soldado bávaro Ulrico Schmidl escreveu, por exemplo, sobre os agaces: “Continuamos viagem durante oito dias (...) Logo fugimos para outro povo  de índios que se chamam agaces, cujos alimentos principais são as carnes e pescados. Homens e mulheres são altos e de boa aparência. (...) Quando os encontramos, nos enfrentaram querendo guerrear e obstaculizar nossa passagem. (...) Matamos a muitos  deles, enquanto que eles deram morte a quinze dos nossos. Os agaces são excelentes guerreiros na água, mas não tão bons em terra. (...) Seu povoado está situado em um rio chamado Iepedy, do outro lado do Paraguai (...)” (1986, p. 44-45).

A ação missionária na região produziria, depois, outros importantes registros sobre estes povos que, via de regra, rejeitaram a proposta de viverem em “pueblos” sob a tutela dos padres. Tanto quanto as cartas dos jesuítas, outros textos, embora fossem obras de exaltação das iniciativas da Companhia de Jesus, constituem-se em rico material etnográfico: a Descrição do Gran Chaco do Pe.  Lozano, a História do Paraguai do Pe. Charlevoix, a História do Paraguai, do  Pe. Muriel, e a História dos Abipones do jesuíta Martin Dobrizhoffer, são apenas alguns exemplos.

Por sua vez, as áreas ao sul e ao norte do Rio Negro (ver mapa 1) eram espaço recorrido por grupos genericamente reunidos pelo designativo de tehuelpes, meridionais e setentrionais, assinalados especialmente pela diferença em suas línguas. De fato, a distinção entre os grupos que povoaram o Pampa e a Patagônia é muito difícil, de uma parte porque suas migrações, percorrendo grandes distâncias, perturbavam os ajuizamentos de seus observadores, de outra, porque muitos deles foram extintos na medida em que avançava o processo de conquista. Lembremos, também, que a expansão de grupos provenientes do outro lado da Cordilheira (os mapuches) sobre seus territórios transformou profundamente sua realidade cultural, a qual passou a absorver ou misturar-se com a de algumas etnias do Pampa e do centro-norte da Patagônia.

Muitas das informações que possuímos sobre estes índios provêm da observação e do registro do Pe. Nicolas Mascardi, um jesuíta italiano que evangelizou nas cercanias do lago Nahuel Huapi, onde fundou, em 1670, a missão de Nuestra Señora de los Poyas del Nahuel Huapi. Mascardi realizou quatro expedições na Patagônia, participou de negociações com chefias indígenas e descreveu as áreas que visitou. Sua Carta Relación, publicada apenas no século XX , é um precioso documento sobre a região e seus índios.

Podemos apreciar, nessa carta, informações sobre como eles se organizavam em linhagens familiares, com grupos numericamente não muito expressivos, tal como requerem práticas econômicas essencialmente baseadas na caça e coleta. Cada uma de suas agrupações estava integrada por nexos de parentesco, ocupando um território específico de caça e coleta. Mesmo que nômades, seus movimentos costumavam percorrer circuitos predeterminados. Durante cada temporada instalavam seus acampamentos em determinados sítios, aos quais os espanhóis chamaram de tolderías.

A cultura material dos índios das “terras baixas”, bastante mais perecível que a das “terras altas”, ao lado da diversidade das nomenclaturas que lhes foram atribuídas, tornaram muito difícil a reconstrução de suas histórias. Além do mais, o seu pendular aparecimento-desaparecimento no cenário das relações entre brancos e índios e, em conseqüência, na documentação escrita resultante deste movimento, também contribuem neste sentido.

Apesar de todas as diferenças que podemos observar neste breve apreciação, uma das primeiras decorrências da Conquista foi a transformação de todas as sociedades americanas em “índios”, categoria genérica que passou a identificá-los como supostamente inferiores, social e culturalmente, aos europeus, e sujeitos ao tributo individual. Percebidas como sociedades primitivas, isto é, sem Estado, estas populações não foram consideradas como objetos de interesse da nossa disciplina. A própria “sombra do Império Incaico” contribuiu para que fossem vistas como o espaço da “natureza”, e não da história. Tal versão da relação entre as terras altas e as terras baixas já havia sido parcialmente elaborada como resultado das fracassadas tentativas de expansão do Tawantinsuyu em direção às vertentes orientais da Cordilheira. Primeiro os incas, portanto, e depois os espanhóis construíram uma dicotomia entre as formações que seriam plenamente “políticas”, do altiplano, e aquelas que seriam quase “naturais”, das terras baixas (Fausto, 2000, p. 23). Enquanto os Andes e a costa do Pacífico seriam, desta forma, espaço de sociedades complexas e refinadas, de formações plenamente políticas, os demais povos seriam de gente “sem fé, sem lei e sem rei”. Tais paradigmas, surgidos mesmo antes da conquista-colonização, foram reforçados na época colonial, e a  idéia  de “barbárie” passou a justificar a “guerra justa” para a captura de escravos, enquanto a de “primitividade” estimulava  ações para sua “civilização”.

Autora: Maria Cristina Bohn Martins - Professora dos Cursos de Graduação e Pós-Graduação em História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, UNISINOS (RS).