Política de massa - Apesentação

Política de massa

Autor(a): José Luis Bendicho Beired

E-mail: jbbeired@assis.unesp.br

 

Apresentação

 

A política de massas apresenta-se como um dos fenômenos mais marcantes do século XX latino-americano, em vista das novas modalidades de participação e de organização do poder que substituíram as formas tradicionais de dominação oligárquica. A criação de sindicatos, partidos e movimentos de trabalhadores foram iniciativas que pressionaram as autoridades a democratizarem o poder por meio da ampliação dos direitos políticos e sociais.
Dois vetores fundamentais balizaram a política de massas: os governos que desenvolveram mecanismos de integração e mobilização dos setores sociais; e os movimentos políticos de extração popular que buscaram alcançar o poder, quer por meio de eleições quer pelo uso da força. Longe de ser exclusiva à América Latina, a política de massas faz parte da história contemporânea da maioria dos países que realizaram a transição da sociedade agrária para a urbana e industrial.
Ela foi um instrumento para a quebra da antiga ordem e a construção de novos sistemas de poder baseados no reconhecimento das maiorias sociais. A integração dos setores populares desempenhou um papel chave: a política de massas teve uma dimensão democrática que se expressou tanto no nível do aumento da participação política e eleitoral quanto da ampliação dos direitos sociais. A nacionalização dos setores populares foi outro aspecto importante da política de massas. Provenientes das zonas rurais, ou então compostos por uma mescla heterogênea de estrangeiros e nacionais sem laços entre si, foram objeto de políticas visando a sua homogeneização cultural e a identificação em torno dos símbolos nacionais. Na política de massas, as próprias ações dos lideres eram apresentadas em nome do interesse nacional, reforçando o nacionalismo e a legitimidade dos governos.
Cabe esclarecer que massa e política de massas constituem conceitos elaborados originalmente para explicar a dinâmica política e os comportamentos dos grupos sociais nas sociedades européias. Massa é uma noção que possui diversas acepções. Em termos positivos, foi empregada por revolucionários e trabalhadores para designar o caráter do sindicalismo e dos partidos de esquerda: movimento de massa era sinônimo de proletário e de popular.
Em outra perspectiva, massa é um termo associado aos fenômenos do circuito de produção/consumo -produção em massa, consumo de massa, cultura de massa, comunicação de massa- e remete às noções de 'amorfo' e de alienação. Designa desse modo a condição das classes que no contexto urbano-industrial perderam os laços sociais das antigas formas comunitárias, cujos indivíduos passaram a viver de modo atomizado, sem vínculos entre si, solitários na multidão.
Os estudos estabelecem duas grandes linhas de crítica da sociedade de massas: a aristocrática e a democrática. Para a primeira, a manutenção da liberdade depende da autonomia dos estratos sociais mais elevados em relação às pressões dos setores sociais inferiores: as elites seriam os "verdadeiros portadores da liberdade", pois representariam a parcela mais consciente dos valores morais da coletividade. Ao contrário, a tese democrática sustenta que a liberdade se vê ameaçada justamente quando setores das elites resolvem exercer influência sobre as massas por meio da mobilização. Tais análises ganharam grande relevo para explicar os fenômenos políticos e culturais das sociedades industriais, nas quais, embora as classes subsistam formalmente, os seus membros tendem a se comportar como massa. Apesar de suas diferenças, ambas as perspectivas convergem na crença que a liberdade é precária na sociedade de massas, a qual se torna vulnerável ao autoritarismo.
As primeiras experiências estatais no sentido de desenvolver uma política de massas na América Latina foram realizadas pelo governo do presidente Venustiano Carranza, durante a Revolução Mexicana, pelo battlismo, no Uruguai, pelos governos da União Cívica Radical e pelo governo da Frente Popular, no Chile. Os movimentos nacional-populares, mais conhecidos como populistas, desenvolveram no sentido mais pleno a política de massas. Vale citar a APRA (Ação Popular Revolucionária Americana), fundada por Victor Raul Haya de la Torre, no Peru; o governo de Lázaro Cárdenas, no México, o peronismo, na Argentina, e o varguismo no Brasil, como alguns das suas expressões mais eloqüentes.
Reconhecendo as notórias diferenças entre os movimentos populistas, basearam-se, no entanto em certos elementos comuns: mística encarnada num líder demiúrgico e paternalista; divisão binária da sociedade e da política, eleições plebiscitárias; organização e mobilização dos grupos sociais a partir de formas associativas criadas e/ou controladas pelo Estado; subordinação dos atores sociais ao sistema político e deste ao líder supremo. Além disso, tais movimentos tiveram uma composição policlassista e desenvolveram políticas voltadas para a integração do mercado interno que visavam garantir maior autonomia internacional. No entanto, abertamente críticos dos princípios democrático-liberais, os governantes de tais regimes tomaram medidas para fortalecer o poder executivo, controlar os parlamentos e frear a competição eleitoral com vistas à manutenção do poder. No México, durante os anos 30 a sociedade foi reorganizada dentro do Partido da Revolução Mexicana e em grandes organizações sindicais criadas pelo Estado, permitindo a manutenção do poder nacional até a década de 1990. No Brasil, as grandes forças políticas e sindicais varguistas foram gestadas no próprio Estado Novo. Por sua vez, o peronismo reformou a Carta Magna do país, transformando-a na Constituição Justicialista. Mas é importante ressalvar que a política de massas também foi e tem sido desenvolvida por outros regimes políticos, dos ditatoriais aos liberal-democráticos, uma vez que essa modalidade política ajustou-se e generalizou-se nas sociedades contemporâneas por possuírem um caráter de massa.
Os regimes nacional-populares desenvolveram uma política de massas através da criação de partidos e organizações sindicais nacionais, da doutrinação de jovens e crianças na escola, como também por meio de um eficiente sistema de comunicação que lançou mão das técnicas de propaganda que se disseminaram a partir dos anos 1930: rádio, cinema, imprensa, rituais cívicos e manifestações de massa em espaços abertos com a presença do líder. A censura e repressão aos opositores foram complementos a tais dispositivos.
Assinale-se por fim que o sucesso de tais movimentos não se deveu simplesmente à manipulação das massas ou a fatores materiais, tais como a redistribuição de renda e a ampliação dos direitos sociais. Tão relevante também foi o componente imaterial, simbólico, representado pelo sentimento de exercício de liberdade imediata e de participação dos setores sociais na vida nacional, ainda que tal sentimento não guarde relação necessária com a efetiva influencia dos setores populares sobre as decisões governamentais. Apesar disso, a autonomia e o peso da participação da base popular foi maior nos populismos da América Latina que no fascismo europeu, minorando desse modo os riscos do autoritarismo mais extremo.
De qualquer forma, a marca de certas experiências é inegável na América Latina. O peronismo é um dos casos mais emblemáticos. O primeiro peronismo (1946-1955) resultou de uma aliança entre militares simpatizantes do nazi-fascismo, movimento operário e elites políticas interioranas. À diferença dos demais países da região, a Argentina contava anteriormente com um importante movimento sindical e partidos de esquerda, que se reconfiguraram com o advento do peronismo. A maioria das fileiras do sindicalismo e do Partido Socialista aderiu ao peronismo, com a exceção dos comunistas que resistiram à conversão. Após produzir inúmeras divisões na sociedade, Perón foi deposto em 1955 e os despojos do movimento político foram disputados por diversos grupos nos anos seguintes. O peronismo reproduziu internamente as divisões de classe e ideológicas do restante da sociedade, polarizando-se entre forças de esquerda e de direita, e a despeito das suas contradições, continua tendo um papel central na vida política, social e cultural argentina.
Filme: para a discussão do peronismo sugerimos o filme Eva Perón: a Verdadeira História. Produção argentina oferece um contraponto o filme norte-americano Evita, dirigido por Alan Parker e estrelado por Madonna. É um filme interessante, que trata dos anos de vida de Eva Duarte com o Perón. Explora a relação entre ambos, sobretudo o papel da controversa figura de Evita no peronismo. Como todo filme, não é neutro. Expressa um ponto de vista peronista peculiar, o da esquerda do movimento, encarnados na década de 1960/1970 na Juventude Peronista e na organização guerrilheira Montoneros, para a qual, "si Evita viviera seria montonera', pois ela, e não Perón, representariam a chama da 'revolução nacional".