Relações interamericanas no século XX - Apresentação

Relações interamericanas no século XX

Autor(a): Cecilia Azevedo

E-mail: ceciliasa@uol.com.br

 

Apresentação

 

Ao trabalhar com a história dos EUA e com as relações interamericanas é preciso antes de tudo estar atento a simplificações e estereótipos muitas vezes presentes nos livros didáticos e na cultura histórica escolar. 
É muito usual tratar as relações hemisféricas num marco temporal muito amplo, sem descontinuidades. Assim, se reproduz nos livros didáticos ainda hoje idéias oriundas da própria mídia e do imaginário corrente nos EUA, como a de que o século XX foi o `século americano` (entendendo-se americano como estadunidense). Os manuais muitas vezes procuram qualificar melhor esse chavão ao discutir a construção da hegemonia norte-americana no hemisfério e, a partir da segunda guerra mundial, no mundo. É importante, no entanto, considerar que: a) os latino-americanos não devem estar fora desse quadro ou presentes apenas como vítimas passivas da ação imperial americana. Por mais assimétrica que tenha sido essa relação, os latino-americanos sempre reagiram, negociaram apoio, conquistaram espaços, criticaram e até resistiram abertamente; b) a idéia de `americanização` da América Latina, normalmente associada a polarizações entre `centro` e `periferia` presentes nas teorias da dependência e do imperialismo cultural, não enxergam intercâmbios, interferências mútuas que afetam os diferentes agentes envolvidos; c) a hegemonia se constrói em função dos contextos e, consequentemente, não pode ser pensada como tendo uma configuração única; as estratégias variam segundo o cenário interno e externo. Isso quer dizer, por exemplo, que o recurso, em maior ou menor grau, a negociações diplomáticas, intervenções militares diretas, apoio a ditaduras, ações econômicas e financeiras, programas de assistência e projetos culturais deve ser objeto de discussão e não qualificado como equivalentes ou simples expressão de algo dado ? a disposição de dominação. Deve-se problematizar, portanto, a idéia muito corrente de que algumas ações simplesmente `encobrem` as verdadeiras intenções e interesses. É importante tentar compreender as diferenças como opções conscientemente adotadas em função de perspectivas político-ideológicas distintas. É preciso considerar elementos comuns, mas também contrastes entre administrações de Republicanos e Democratas e também as divisões no interior desses partidos e nas diferentes esferas governamentais, todas sujeitas a pressões da opinião pública.
Portanto, deve-se evitar tratar os EUA e também a América Latina e os países que a compõem como monólitos. Há que se considerar igualmente, ao lado dos governos, redes e atores sociais e políticos diversos que cada vez mais se apresentam como canais importantes para vocalização e efetivação de políticas e relações econômicas, políticas e culturais alternativas.
Nesse sentido, é muito útil trabalhar com discursos políticos de atores que ocupam posições diversas, em diferentes contextos, tentando avaliar a ausência ou presença de determinados termos e os sentidos diferenciados que lhes são atribuídos. Um exemplo: a idéia de destino e de missão que justificaria as intervenções norte-americanas no mundo. É uma idéia muito arraigada, que se pode encontrar em discursos de políticos de diferentes épocas e vinculações partidárias. Mas essa presença não equivale a proposições idênticas. É muito comum a associação do destino redentor às origens nacionais, a uma narrativa bíblica, que faz da América um novo Israel, `uma cidade no topo da colina` habitada pelos novos peregrinos, fugitivos religiosos. Há também versões mais secularizadas que singularizam o gênio político dos fundadores da nação e das instituições então criadas e as condições geográficas e recursos materiais da nova nação. Em comum, a percepção de que os EUA teriam a possibilidade e mesmo a responsabilidade de moldar o mundo à sua imagem e semelhança, mas essas intervenções no mundo nada influenciariam sua dinâmica interna ou a própria identidade norte-americana, a não ser no sentido de reforçar a coesão nacional. Mas essa coesão é um mito. Há vozes que se levantam contra os efeitos no mínimo contraditórios das intervenções e contra a própria idéia de missão. Nesse campo, há tanto os que defendem uma postura pragmática, posto que pautar a política externa em ideais comprometeria os `reais interesses` da nação, quanto os que, no extremo oposto do leque ideológico, preferem o isolacionismo ao risco do etnocentrismo da postura civilizatória ou a violência das intervenções armadas. As imagens e os documentos que serão apresentados ao final, ilustram essas diferentes possibilidades.
Outro problema a ser enfrentado: as periodizações e rótulos. É muito usual no campo das Relações Internacionais, o `batismo` de iniciativas, programas e períodos com nomes pomposos. Assim temos o período do pós-segunda guerra nas relações dos EUA com a América Latina qualificado por alguns autores como um período da `Negligência Benigna`, que contrastaria em tudo com os períodos imediatamente anterior da `Boa Vizinhança` e posterior, da `Aliança para o Progresso`, que nomeiam, respectivamente, as propostas de Franklin Roosevelt e John Kennedy para a América Latina.
Nos livros didáticos, é comum o lançamento da Política de Boa Vizinhança de FDR ser associado ao contexto da segunda guerra mundial e seus imperativos geoestratégicos: a defesa do continente, a necessidade de garantir bases militares e matérias primas essenciais ao esforço de guerra. Embora se deva reconhecer que a partir do final da década de 30 essa relação foi fundamental, há que se ponderar que essa perspectiva é excessivamente simplista uma vez que percebe os assuntos hemisféricos como determinados pelo contexto europeu, negligenciando os seguintes elementos: em 1933 ainda não se podia antecipar o advento da segunda guerra mundial; desde o final da década de 20, Hoover já apontava a necessidade de rever a política externa para região visando o incremento das relações comerciais; as pressões dos países latino-americanos para que os EUA revissem sua posição; as relações entre política externa e política interna, mais especificamente o impacto da depressão econômica e o programa de Roosevelt para enfrentá-la.
Quanto a este último fator, é importante ressaltar as mudanças no âmbito ideológico e cultural nos EUA fomentando uma visão positiva da América Latina, inclusive como um modelo de modernidade alternativa, avesso às premissas do liberalismo clássico, mormente o individualismo, em sua inclinação pelo corporativismo e pelo organicismo. O lugar central do Estado no sistema político e a preferência por identidades coletivas seriam elementos comuns ao New Deal de Roosevelt e ao Estado Novo de Vargas, por exemplo, paralelismo aludido pelo próprio Roosevelt em discurso proferido no Rio de Janeiro por ocasião de sua visita ao Brasil em 1936. Portanto, a aproximação entre os EUA e a América Latina teria ocorrido também no plano das representações da identidade e dos projetos políticos nacionais.
Seguindo o mesmo raciocínio, não se pode explicar a Aliança para o Progresso, proposta por Kennedy, unicamente como um imperativo da Guerra Fria, que ganhou novos tons após Revolução Cubana, como normalmente é apresentada nos livros didáticos. Podemos tomar esse contexto geral apenas como ponto de partida para entender o porquê da resposta de Kennedy ter sido apresentada nos termos de um projeto de desenvolvimento. JFK procurava encarnar a disposição internacionalista liberal idealizada nas primeiras décadas do século XX por outro Democrata, o presidente Wilson, e também reeditar a disposição positiva de Roosevelt e da Boa Vizinhança. Mas foi muito além dos seus antecessores, no plano formal, ao assumir explicitamente a relação entre pobreza econômica, desigualdade social e opressão política, prometer fundos públicos de longo prazo para apoiar projetos de industrialização, diversificação da economia e investimentos em infra-estrutura sanitária e educacional. Desse modo, procurava reverter o forte sentimento anti-norte-americanista que a postura ortodoxa do governo Eisenhower, com sua ênfase exclusiva na manutenção da estabilidade fiscal e preservação de um clima favorável aos investidores privados, havia criado.
A Aliança para o Progresso procurou traduzir e aplicar o receituário da teoria da modernização que se difundia então em várias partes do mundo, apresentando a possibilidade de acelerar a transição das sociedades consideradas tradicionais para o estágio assumido como moderno. A teoria da modernização reforçava uma visão da história como um percurso ascendente e positivo, uma teleologia que serviu como justificativa para os diferentes dispositivos e empreendimentos norte-americanos na região. Foram vários os descaminhos da Aliança, mas ela não deve ser vista como um `encobrimento` para os `verdadeiros objetivos` norte-americanos. Vale buscar compreender o sentido específico atribuído à missão norte-americana pelos seus formuladores e receptores na América Latina naquela altura e o por quê dela ter sido pensada como o melhor caminho, entre outros possíveis, para enfrentar a Guerra Fria.
É importante dizer que embora a condução prática da Aliança fosse o objeto freqüente de crítica por vários líderes latino-americanos, seus pilares teóricos e políticos eram compartilhados por políticos e acadêmico latino-americanos vinculados à Cepal. Vale lembrar da Operação Pan-Americana proposta por Juscelino Kubitscheck anteriormente.
Nos EUA, a oposição principalmente de Republicanos à APP e aos projetos de assistência econômica em geral baseava-se na idéia de que seria vão imaginar qualquer possibilidade de elevar a América Latina a um patamar equivalente ao dos EUA pelo simples fato de que essas duas Américas nada teriam em comum. Não era o caso de se buscar a superação de um pesado fardo da história, mas de lidar com o fato de que as histórias dessas duas Américas não teriam como se encontrar. 
Assim, para compreender as relações interamericanas em sua dinâmica complexa, é fundamental pensar que os atores desse jogo são igualmente complexos e contraditórios. Para discutir os flagrantes antagonismos adequadamente, não se deve recair em maniqueísmos ou apagar aproximações e trocas.