Os relatos europeus sobre os índios da América – um estudo de caso - Apresentação

Os relatos europeus sobre os índios da América – um estudo de caso

Autor(a): Larissa Moreira Viana

E-mailufflarissa@gmail.com

 

Apresentação

 

 “Tu não tens nada de mim, eu não tenho nada teu. Tu, piniquim. Eu, ropeu.” O engenhoso verso de Luis Fernando Veríssimo sugere um dos aspectos sobre os quais os historiadores da colonização das Américas se debruçam freqüentemente: a alteridade. A conquista, a partir do final do século XV, confrontou europeus e índios em um cenário até então desconhecido por aqueles, e suscitou a produção de inúmeras crônicas e descrições sobre o Novo Mundo e seus habitantes. Os europeus, como já observou o historiador Leandro Karnal, criaram a abstração indígena através do registro de um equívoco geográfico disseminado pelo navegador Cristóvão Colombo, que acreditava ter chegado às Índias. Hoje sabemos que, além do equívoco geográfico, a expressão “índios” encerra uma diversidade de povos, marcados por semelhanças e diferenças. Os europeus da época de Colombo – assim como os de hoje – também eram muito diferentes em suas crenças, atitudes e lealdades políticas.       

 
Desta forma, a ideia do encontro entre europeus e indígenas representa mais um recurso didático do que uma possibilidade analítica, como também advertiu Leandro Karnal. Não deixamos nem deixaremos de utilizar esses dois termos como recursos didáticos, mas é sempre válido estarmos conscientes da peculiaridade destes referenciais.  
 
Digo isto pois vamos tratar aqui da escrita produzida pelos europeus sobre o mundo dos índios.  De fato, a maior parte dos textos de que dispomos sobre os índios depois da conquista das Américas foram escritos por navegadores, religiosos, conquistadores, militares, civis e tantos outros europeus envolvidos no processo de colonização. Como lidar com esses testemunhos? Como interrogá-los? Será que eles falam apenas dos europeus e seus preconceitos? Ou descortinam, em certos momentos, detalhes preciosos sobre os índios das Américas?
 
1) Escrita e alteridade
 
O historiador François Hartog publicou na França, em 1980, um livro intitulado O espelho de Heródoto: ensaio sobre a representação do outro. A preocupação incial desse autor, ao estudar diferentes formas de representação sobre “o outro”, foi a de desenvolver uma “retórica da alteridade”, destacando aspectos geralmente presentes em textos que falam sobretudo do “outro”: as narrativas de viagem, as crônicas coloniais ou os diários de conquistadores, por exemplo.
Para Hartog, as narrativas centradas na representação do outro recorrem constantemente ao par diferença e inversão. Para usar um exemplo presente nas crônicas sobre os índios da América, podemos lembrar aqui um trecho das cartas do conquistador Hernan Cortés sobre os mexicas:
 
“As pessoas que habitam esta terra, desde a Ilha de Cozumel até a ponta de Yucatán...são de estatura mediana, de corpos e gestos bem proporcionados, diferenciando-se apenas pelos ornamentos que distribuem por seus corpos...Algumas [casas] possuem na entrada um amplo pátio onde constróem os altares e adoratórios para seus ídolos...Não começam nenhuma atividade do dia sem antes queimar incenso nas ditas mesquitas, e algumas vezes sacrificam seus próprios corpos...Todo o sangue que corre oferecem àqueles ídolos, espalhando-o por todas as partes daqueles oratórios ou elevam-no para o céu...”.(H. Cortés, 1519)
 
Além de registrar a diferença entre “as pessoas desta  terra” e os europeus, o relato ressalta também os modos e costumes daquela terra, inversos aos praticados pelos europeus, e por isso mesmo dignos de nota.
Para Hartog, a retórica da alteridade se vale igualmente das comparações e analogias, estabelecendo classificações, semelhanças e desvios entre os padrões de vida e comportamento do narrador e do “outro”. Mais uma vez, a narrativa de Cortés pode nos oferecer um exemplo: 
 
“Os domínios deste povoado se estendem por três ou quatro léguas de casa ao lado de casa...Em um monte muito alto está a casa do senhor, com uma fortaleza que se equipara às melhores de Espanha, cercada de muros e covas”. (H. Cortés, 1524)
 
Até meados do século XVI, se consideramos especificamente os relatos produzidos sobre a América, outro dado bastante comum era a descrição das maravilhas e curiosidades do Novo Mundo. O maravilhoso, observado sob o ponto de vista de cristãos do século XVI, projetava no Novo Mundo o ideal dos impérios deslumbrantes, dotados de riquezas excepcionais, de natureza abundante e remota. Cristóvão Colombo, o navegador genovês que aportou no Caribe em 1492, escreveu em seus diários várias passagens que remetem à noção do maravilhoso. Veja este exemplo:
 
“...E assim parti, mais ou menos às dez horas...para essa outra ilha, vastíssima, e onde todos esses homens que trago de San Salvador indicam que há verdadeiro esbanjamento de ouro...São ilhas verdejantes, férteis e de clima mui brando, e podem conter uma porção de coisas que ignoro...”(C. Colombo, 1492)
 
Mas será o referencial do maravilhoso uma constante nas narrativas sobre o Novo Mundo?  Já em meados do século XVI, percebe-se nessas narrativas uma crescente preocupação com a descrição voltada para as particularidades do continente e de seus povos nativos. O Novo Mundo permanecia exótico, sob o ponto de vista dos europeus, mas o referencial do maravilhoso cedia espaço à experiência: os europeus condenavam geralmente os costumes e modos de vida dos nativos, mas dedicavam-se a relatar suas particularidades. Entendia-se que o conhecimento era uma espécie de arma para subordinar os nativos em diversas esferas da vida cotidiana. Um cronista que se dedicasse a relatar com pormenores os traços de cultos locais, por exemplo, o fazia geralmente com grande dose de preconceito. Ao mesmo tempo, alguns ofereciam a seus leitores, totalmente alheios ao contexto ameríndio, detalhes singulares sobre os povos que descreviam. Podemos observar um exemplo desta conduta nas palavras de Gerónimo de Mendieta, missionário franciscano que viveu na Nova Espanha na segunda metade do século XVI,  incumbido de escrever uma história da região, obra que concluiu em 1596. No trecho a seguir, dedicado à maneira de orar dos índios, nota-se um recurso que se tornara disseminado naquele tipo de escrita: o uso de palavras e expressões próprias dos índios para explicar conceitos e práticas estranhos aos europeus: 
 
“...aquilo que nós chamamos de inferno, que é o lugar dos condenados, eles dizem Mictlán...[que] quer dizer propriamente “lugar dos mortos”...que é o lugar dos que para sempre morrem; e à região ou à parte do norte chamam os índios de Mictlampa, que quer dizer “em direção às bandas ou local dos mortos”, de onde bem se infere que em direção àquela região eles localizavam o inferno...” (G. de Mendieta, 1596)
 
Para nós, estudiosos da História, é preciso lembrar sempre que tais relatos devem ser analisados com atenção a alguns aspectos, na verdade válidos para qualquer testemunho histórico: quem escreveu? Em que contexto a narrativa foi produzida? Quais eram as relações entre o cronista e a sociedade que ele pretendia descrever?  
 
Tzvetan Todorov nos oferece uma pista importante para o trabalho com os cronistas da América colonial, em particular. De acordo com esse autor, a conquista da América e dos nativos americanos foi o encontro mais surpreendente de nossa história, pois envolveu um sentimento radical de estranheza. Os europeus mantinham há tempos relações e contatos com a África, a China e a Índia, mas ignoravam a América. Para citar as palavras do próprio Todorov, devemos pensar que “no início do século XVI, os índios da América estão ali, bem presentes, mas deles nada se sabe, ainda que, como é de se esperar, sejam projetadas sobre os seres recentemente descobertos imagens e ideias relacionadas a outras populações distantes”. A pista contida nessas palavras é, na verdade, uma advertência a quem se aventure na interpretação de autores que escreveram sobre os índios na época colonial: muito do que os europeus diziam sobre os índios era fruto de ideias pré-concebidas e de noções aplicáveis a outros povos e contextos. 
 
Sendo assim, você deve estar pensando, os relatos coloniais produzidos pelos europeus diziam mais a respeito dos preconceitos europeus do que sobre o mundo dos índios.  Mas não é bem assim! Se os relatos europeus forem interrogados com rigor, e comparados a outras fontes – como as crônicas produzidas pelos próprios nativos, por exemplo –, pode-se descobrir neles algo sobre os índios e suas interações com o universo colonial. O historiador Leandro Karnal, já citado no início desta aula, é outro que nos ajuda a pensar nos desafios de analisar aspectos das culturas nativas do Novo Mundo através de narrativas européias. Para este autor, é necessário estabelecer “um diálogo entre a revelação integral da alteridade e a opacidade absoluta do passado” no trabalho com esse tipo de relato. Dito de outra forma, a proposta de Karnal compreende dois movimentos: o primeiro é a convicção de que a cultura européia não foi tão forte a ponto de apagar todos os traços das culturas indígenas. Afinal, milhões de indígenas das Américas continuam hoje falando suas línguas nativas, recriando práticas herdadas de seus ancestrais  e adaptando-as, muitas vezes, aos modos ocidentais. Perceber e valorizar este aspecto  é acreditar na possibilidade do outro, e diminuir um pouco a onipotência européia.
 
O segundo movimento proposto por Leandro Karnal é a desconfiança para com as fontes, que não devem jamais ser tomadas como verdades absolutas. Assim,  como afirma o autor, é preciso compreender que “entre cada historiador e seu objeto indígena existe um vidro que não é opaco nem transparente, mas translúcido, que traz um reflexo de quem vê através dele, mas permite a passagem da luz”.