A revolução Cubana - Apresentação

A revolução Cubana

Autor(a): Silva Cezar Miskulin

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Apresentação

 

O triunfo da Revolução Cubana, em 1º de janeiro de 1959, mudou radicalmente a história da ilha localizada a apenas 140 quilômetros dos Estados Unidos, pois iniciou-se um processo de transformações econômicas, políticas, sociais e culturais para a construção de uma sociedade considerada oficialmente socialista. Ao mesmo tempo, alterou radicalmente as relações entre esse país e os Estados Unidos, até então privilegiado pelo governo cubano.

Antes da Revolução, a ilha vivia sob a ditadura militar instaurada por Fulgêncio Batista em 1952. Do ponto de vista econômico, era dependente dos Estados Unidos, já que as empresas norte-americanas controlavam setores-chave como transporte, comunicação, sistema financeiro e turismo. Além disso, era para lá que ia a maior parte da cana-de-açúcar produzida em Cuba. Um grupo de jovens armados, liderados por Fidel Castro, resolveu mudar a situação e tentaram tomar de assalto o quartel Moncada, na cidade de Santiago de Cuba, em 26 de julho de 1953. O objetivo era desencadear uma ofensiva contra a ditadura de Batista. Porém, a ação não teve sucesso e os revoltosos foram presos, acabaram mortos ou condenados à prisão.

Em 1955, Fidel e seus companheiros foram anistiados e exilaram-se no México. Lá, o movimento recebeu adesões de novos membros, como do argentino Ernesto Che Guevara. Em 1956, um grupo de 82 revoltosos chegou à ilha, mas Batista os reprimiu violentamente. A maioria morreu, mas um pequeno número conseguiu reagrupar-se numa região montanhosa conhecida como Sierra Maestra. O grupo obteve apoio de membros do Movimento 26 de Julho que militavam nas cidades, e passou a utilizar táticas de guerrilha contra o exército da ditadura. Aos poucos, constituíram uma área controlada pela guerrilha, onde instituíram a reforma agrária e ganharam muitos adeptos entre a população da região. Em 31 de dezembro de 1958, a ditadura foi derrotada e Batista fugiu de Cuba.

No primeiro dia do ano de 1959, Fidel Castro proclamou o triunfo da Revolução em Santiago de Cuba e dirigiu-se a Havana, percorrendo toda a ilha com a sua coluna guerrilheira. O novo governo passou a executar o programa do Movimento 26 de Julho, promovendo aumento de salários e redução das tarifas de energia elétrica e telefone. A reforma agrária, proclamada em maio de 1959, expropriou os grandes latifúndios, o que afetou diretamente inúmeras propriedades de empresas estadunidenses para beneficiar os trabalhadores rurais sem-terra. Em retaliação, o governo dos Estados Unidos reduziu drasticamente a cota de importação de açúcar cubano. Como resposta, em 1960, o governo cubano nacionalizou as empresas, bancos e propriedades estadunidenses sediadas na ilha.

Os Estados Unidos reagiram a estas medidas e o fornecimento de petróleo à ilha foi cortado. Cuba, buscando sair do impasse em que se encontrava, estabeleceu acordos comerciais com a União Soviética, importando o petróleo soviético e exportando seu açúcar. Em represália, as refinarias norte-americanas instaladas na ilha recusaram-se a refinar o petróleo soviético. Em contrapartida, o governo cubano nacionalizou as refinarias. O governo norte-americano suprimiu de vez a importação do açúcar cubano e rompeu relações diplomáticas com Cuba em janeiro de 1961.

Em abril de 1961, um grupo de exilados cubanos, com o apoio da CIA e do governo dos Estados Unidos, desembarcou na praia Girón, na Baía dos Porcos, na tentativa de derrubar o governo cubano. A invasão foi rapidamente derrotada pelas milícias e pelo exército rebelde. O fracasso da agressão militar fez com que o governo estadunidense decretasse o embargo comercial em relação a Cuba que vigora até hoje. A proclamação do caráter socialista da Revolução Cubana se deu durante a invasão, por Fidel Castro. Foi a saída para o isolamento comercial e político de Cuba na América Latina, expulsa inclusive da OEA, em 1962. Os acordos comerciais entre Cuba e os soviéticos prosseguiram e a economia da ilha foi se ajustando à centralização e ao planejamento econômico, tornando-se cada vez mais dependente do petróleo e dos produtos industrializados importados da União Soviética e do Leste Europeu.

A Revolução trouxe conquistas para a maioria da população. A educação e a saúde, por exemplo, tiveram grandes avanços. O investimento constante na educação garantiu que a média da população tivesse um grau elevado de escolaridade e praticamente não há analfabetos em Cuba. Na saúde, desenvolveu-se o atendimento público e de qualidade, com a expansão do sistema de saúde e a implantação do atendimento médico familiar.

Com o triunfo da Revolução, Cuba passou ter uma política externa na América Latina voltada para a exportação da Revolução. Che Guevara escreveu Guerra de Guerrilhas em 1960, e defendeu a guerrilha rural como a via cubana para insurreição, para conseguir o triunfo da Revolução. Che defendia que não era necessário esperar o amadurecimento das condições para fazer a Revolução, já que o foco revolucionário poderia criá-las e, juntamente com as forças populares, ganharem a guerra contra o Exército. Fidel Castro também defendeu que Cuba fosse o exemplo para tornar a Cordilheira dos Andes a Sierra Maestra no continente americano. O governo cubano passou a impulsionar materialmente o surgimento de movimentos guerrilheiros na América Latina. Além disso, montou campos de treinamento no território cubano para preparar os guerrilheiros: no início estes campos foram montados na própria Sierra Maestra, onde o governo também mantinha um arsenal de armas e munições, para o caso de ter que resistir a uma invasão dos Estados Unidos.

A Revolução Cubana teve um grande impacto na esquerda da América Latina, já que a guerrilha como instrumento para se fazer a Revolução rompia com a doutrina do marxismo-leninismo que defendia a necessidade da existência de um partido operário revolucionário. Estas proposições questionavam a política de coexistência pacífica proposta pelo Partido Comunista da União Soviética e aceita pelos Partidos Comunistas da América Latina. Após a experiência cubana, setores da esquerda começaram a questionar a linha política adotada pelos Partidos Comunistas, que apostavam na aliança com a burguesia em busca de reformas. A influência de Cuba como modelo político tornou-se mais direta quando uma parte da esquerda latino-americana passou a propor a revolução armada, através da guerra de guerrilhas e da tática do foco revolucionário. Surgiu uma série de novas organizações, fruto de rachas e dissidências dos Partidos Comunistas e de outros partidos, que propunham seguir o exemplo cubano.

O governo cubano realizou diversas tentativas de organizar uma internacional que pudesse agrupar os movimentos guerrilheiros e de libertação do Terceiro Mundo. Em 13 de janeiro de 1966, o governo cubano realizou em Havana a Tricontinental. O encontro reuniu representantes da esquerda legal, clandestina e dos movimentos nacionalistas radicais dos três continentes. A luta de libertação foi concebida como antiimperialista, anti-colonialista e como parte da revolução social anti-capitalista.

Em 1967, o governo cubano buscou unificar as atividades guerrilheiras na América Latina através da OLAS, Organização Latino-Americana de Solidariedade, que foi criada na conferência ocorrida entre 31 de julho a 10 de agosto de 1967. A OLAS era uma tentativa de organizar uma Internacional no continente americano e fazia parte de uma estratégia do governo cubano para defender e apoiar movimentos de luta armada e grupos guerrilheiros no Terceiro Mundo. Propôs-se a revolução socialista como principal objetivo da América Latina, através da reafirmação da luta armada e da guerrilha e colocando como inimigo comum os Estados Unidos e a luta antiimperialista.

Neste Congresso foi lida a mensagem à Tricontinental, escrito por Che Guevara, em 1967, durante sua luta guerrilheira nas montanhas da Bolívia e dirigida ao secretariado da OLAS. Na carta, defendia o conceito de revolução mundial, o internacionalismo operário e a inevitabilidade da luta armada. Guevara sustentava a necessidade de expandir a luta guerrilheira para o restante da América Latina, criando "dois, três, muitos Vietnãs". Che também criticou as burguesias nacionais, como sendo incapazes de resistir ao imperialismo. Para ele, a América Latina necessitava de uma revolução socialista, que deveria ser alcançada pela luta armada, por meio da guerrilha rural, que seria apoiada pelo restante da população. Esta carta de Che Guevara teve uma grande repercussão, não só nos movimentos de libertação latino-americanos, mas também em outras partes do mundo.

As iniciativas cubanas de financiar e treinar movimentos guerrilheiros, bem como a tentativa de organizar a OLAS, desagradavam o governo soviético liderado por Brejenev, contrário às tentativas de expandir revoluções na América Latina e favorável a coexistência pacífica. O ano de 1968 foi decisivo para a Revolução, já que marcou o alinhamento político do governo cubano com a União Soviética, sobretudo em relação a sua política externa. A invasão das tropas soviéticas em Praga, na Checoslováquia, para reprimir um movimento que propunha um socialismo com democracia e mais humano, foi apoiada pelo governo de Fidel Castro. Com o assassinato de Che Guevara na Bolívia, o governo cubano aproximou-se mais da União Soviética, tornando-se dependente em relação à grande potência socialista e aplicando a política de socialismo num só país.

Ao longo dos anos 70, consolidou-se em Cuba um governo autoritário e repressivo, que suprimiu a liberdade de criação e de expressão, além de limitar em muito a participação democrática efetiva da maioria da população nos órgãos de poder. A falta de liberdade política e cultural, expressa no regime de partido único do Partido Comunista Cubano, na centralização do poder nas mãos de Fidel Castro, no controle dos meios de comunicação e na censura de produções culturais também se constituíram em problemas recorrentes ao longo dos anos.

A definição da política cultural oficial foi elaborada principalmente pelos dirigentes políticos, que determinaram o espaço dos intelectuais na Revolução Cubana. A política cultural foi uma forma de buscar controlar as produções intelectuais e artísticas, por meio de estímulos e premiações para a criação da arte revolucionária. Nos anos 70, a censura e o endurecimento no campo intelectual atingiram o seu auge. Apesar da abertura no campo cultural que vem se desenvolvendo desde meados dos anos 80, ela não foi acompanhada por reformas políticas, o que impede que a liberdade de criação e expressão em Cuba seja plena. A censura, as diretrizes oficiais, o acesso restrito à informação, à imprensa estrangeira, às viagens internacionais e à internet, permanecem como práticas dos altos funcionários do governo cubano, o que impede que o trabalho intelectual em Cuba seja totalmente livre. A ampla liberdade de criação e expressão segue sendo uma questão não resolvida pela política oficial da Revolução Cubana.

O processo de burocratização dos dirigentes teve como conseqüência a consolidação de divisões sociais e de privilégios e regalias para poucos, enquanto a maioria da população cubana conviveu com racionamento e dificuldades no abastecimento de gêneros de primeira necessidade. Com o fim da União Soviética, em 1991, o governo cubano foi obrigado a promover mudanças para enfrentar a grave crise econômica. O colapso do bloco soviético deixou a ilha em situação deplorável, com falta de combustível, alimento e de produtos industrializados. Denominado de "período especial", significou uma abertura ao capital estrangeiro, que investiu, sobretudo, no turismo. Nessa fase, extinguiu-se o monopólio do comércio exterior e legalizou-se o dólar, o que acentuou as desigualdades sociais entre aqueles que têm acesso ou não à moeda estrangeira. Com a chegada de Chavez ao poder na Venezuela, acordos comerciais foram estabelecidos entre os dois países e o fornecimento do petróleo venezuelano aliviou a situação de crise da economia cubana. Entretanto, muitas questões ainda não foram resolvidas na ilha, como a sucessão de Fidel Castro, que se afastou do poder em julho de 2007, por motivos de saúde, e delegou-o provisoriamente a Raúl Castro, seu irmão. Resta-nos esperar para saber como serão os próximos passos da sucessão de Fidel e do futuro de Cuba.