A Sociedade Colonial na Hispano-América - Apresentação

A Sociedade Colonial na Hispano-América

Autor(a): Maria Cristina Bohn Martins

E-mailcrisbohn@terra.com.br

 

Apresentação

 

Em 1657 um andaluz chamado Pedro Bohorques chegou a Tucumán no Noroeste argentino, região convulsionada por constantes rebeliões de índios da etnia calchaqui. Bohorques havia chegado a Lima em 1620, onde aprendeu o quéchua e tomou conhecimento de alguns mitos que circulavam insistentemente na região. Entre eles estava o do Paytiti, nome que identificaria um reino de riquezas fabulosas escondido no coração nas florestas da América do Sul. Outro mito que conheceu, referente ao Inkarri, prenunciava a restauração do poder dos incas. De acordo com ele, o retorno do Império ocorreria quando as cabeças decapitadas dos soberanos Atahualpa (1533) e Tupac Amaru I (1572) voltassem ao corpo destes governantes que tinham sido executados pelos espanhóis. Pedro Bohorques apropriou-se dos anseios gerados por estas histórias e aprendeu a manejar as expectativas daqueles que nelas acreditavam. Portou-se assim, como tantos outros sujeitos que souberam bem circular entre o mundo dos brancos e dos índios...

Ele ingressou no Vale Calchaqui sob a proteção do cacique Pivanti de Tolombón, pueblo formado por antigos mitimaes incaicos. Apresentou-se aí portando um duplo discurso: aos índios dizia ser descendente de Paullu, o último inca? coroado? pelos espanhóis. Já para estes últimos, afiançava estar agindo de forma a manipular os índios para extrair-lhes segredos sobre seus tesouros.

A história de Bohorques serve-nos para ilustrar o quanto, na nova sociedade colonial, os códigos culturais de indígenas e europeus estavam embaralhados e como poderiam tirar vantagem disto aqueles que, como o aventureiro andaluz, sabiam movimentar-se entre estes dois mundos. Este era, pois, um ambiente ?mestiço?, e não apenas na sua face biológica, como também nos padrões de cultura e comportamento que tinham nele se formado.

Pedro Bohorques, assim como tantos outros ?espanhóis?, provinha dos estratos menos privilegiados da sociedade peninsular, cujos membros, contudo, estavam imbuídos de uma mentalidade senhorial, alicerçada no poder de exploração da terra e dos que nela trabalhavam. ?Ouro e honra?, que se queria obter através das façanhas militares, era o que buscavam os ?conquistadores? do XVI. No Novo Mundo, contudo, os títulos (que foram parcamente concedidos pela Coroa) e a posse da terra haveriam de conviver com outras formas de ascender socialmente, entre as quais as novas práticas mercantis e as rendas estimuladas pela colonização.

Analisada de certo ângulo, a Conquista contribuiu para fazer cambalear velhas hierarquias típicas da sociedade peninsular, por exemplo, ao contemplar com nobiliarquia e fortunas gente da qualidade de Francisco Pizarro, algo a que ele jamais teria acesso no Reino. Ou quando colocou orgulhosos fidalgos castelhanos na condição de obediência a homens comuns que estavam à sua frente na cadeia de comando da Conquista. Tais ponderações, porém, não devem fazer crer que a nova sociedade desconheceu antigas formas de estratificação e discriminação social, as quais se renovaram e reforçaram na colônia.

Podemos inclusive lembrar que, ao contrário do que sugeriria o senso comum, a valorização das linhagens a que pertenciam os indivíduos e o status atribuído a algumas delas, eram um elemento de aproximação entre a sociedade castelhana e a de certos grupos indígenas. Isto pode ser percebido no que se refere à aristocracia das outrora poderosas cidades mesoamericanas (Tenochtitlán, Texcoco, Tlaxcala, etc), como entre a nobreza incaica, tendo havido um esforço por parte destes grupos em afirmar e fazer valer o seu prestígio. De outro lado, na medida em que as famílias desta nobreza tradicional desapareciam por conta da violência (e da turbulência) que se seguiu à Conquista, outros indivíduos assumiam seu lugar. Isto ocorria a partir de estratégias diversas, como é o caso daquela que ilustramos acima para o episódio de Pedro Bohorques, ou simplesmente para sujeitos que serviam de intermediários entre os espanhóis e os demais índios e auferiam ganhos disto.

Entre tantos outros aspectos importantes para a compreensão da sociedade colonial que mereceriam nossa atenção neste estudo2, queremos ainda destacar o papel desempenhado pela ?raça?. Embora não se reconheça a existência de ?raças? enquanto categoria biológica ? ocorreu aí uma construção cultural que foi definidora da posição, dos direitos e das obrigações dos grupos e dos indivíduos. Desta forma, espanhóis e índios estiveram em pólos opostos em uma sociedade em que os privilégios estiveram reservados aos primeiros e a condição de tributários aos segundos. Os espanhóis e seus descendentes (criollos) ocuparam as posições mais destacadas nesta sociedade, construíram fortunas e sujeitaram os índios. Todavia a história desenrolada neste Novo Mundo acabaria por tornar muito complexa a situação assim descrita muito brevemente, e os fenômenos de mestiçagem, bem como outras variáveis como a riqueza ou o gênero acabariam por introduzir novos matizes nas diferenças postas entre conquistadores e conquistados.