Viagens e viajantes na América Latina - Apresentação

Viagens e viajantes na América Latina

Autor(a)Stella Maris Scatena Franco

E-mailstellafv@gmail.com

 

Apresentação

 

As viagens para a América e os seus registros existem desde que o continente foi descoberto pelos europeus. Continuaram sendo realizados durante a colônia e o período independente, tendo cumprido diferentes objetivos, a depender das conjunturas específicas de cada momento e das regiões de partida e chegada dos viajantes.
O que motivou homens e mulheres do passado - quando não se dispunha de maiores facilidades tecnológicas e de transporte como agora - a vencerem distâncias, passarem por perigos e enfrentarem mundos e realidades diferentes dos seus? Não há uma única resposta para esta questão, mas pode-se afirmar que, se as motivações individuais foram importantes, nem sempre foram fatores exclusivos. As viagens frequentemente se atrelavam a terrenos mais amplos, como os da economia e da política. Alguns poucos exemplos dão mostra disso. Quando se lê as crônicas dos religiosos que se deslocaram para a América Latina a partir do século XVI é impossível esquecer-se do poder da Igreja Católica no período colonial e de seu papel evangelizador; os relatos europeus do século XIX transportam o leitor a temáticas próprias daquele período, como o fim do monopólio comercial, associado aos processos de independência, o desenvolvimento industrial europeu e sua busca por novos mercados consumidores.
Tais exemplos servem aqui apenas para lembrar que as viagens não ocorriam ocasionalmente, mas que, ao contrário, se relacionavam historicamente a fatores mais abrangentes. Para além das questões políticas e econômicas, também foram parte de um processo cultural. As formas de imaginar a América e a Europa, de caracterizar, julgar e representar estas partes são um exemplo disso. Não raramente, as descrições sobre a América Latina foram realizadas pelos europeus por meio de comparações que evidenciavam hierarquias. Assim, forjou-se a imagem de uma Europa civilizada e de uma América bárbara e primitiva, discurso que serviu aos interesses dos poderosos de ambos os lados. Este ideário contou significativamente com a colaboração dos viajantes que trafegaram entre os dois mundos e dos relatos que produziram, retratando América Latina de forma a mostrar o exótico, o cotidiano da vida nessas paragens, os grupos sociais e os seus costumes.
A produção oriunda das viagens é particularmente rica para se vislumbrar as imagens da América tecidas nos distintos momentos da história do continente. Dada a impossibilidade de abarcar o amplo e diversificado repertório que envolve as viagens, os viajantes e seus relatos para o continente, optou-se aqui por um recorte em torno de algumas viagens realizadas por europeus à América hispânica na primeira metade do século XIX, contexto marcado pela busca da emancipação e pelo imediato pós-independência.
Este momento foi propício à circulação de estrangeiros na América Latina, até então restrita em razão do controle exercido pelas Coroas ibéricas sobre suas possessões coloniais; além disso, foram abertas a uma Europa em plena Revolução Industrial, possibilidades de estabelecer relações comerciais com os novos países, identificados como potenciais mercados para seus produtos. Esta parte do continente tornou-se especialmente atraente para viajantes europeus, que em seus relatos analisaram a geografia e a natureza, a sociedade e os seus costumes, produzindo um conhecimento permeado de julgamentos, o que marcava a posição de autoridade em que se colocavam frente aos americanos.
Tais relações de poder são possíveis de ser visualizadas, por exemplo, nas viagens científicas dos europeus para a América, ocorridas no século XIX. Não se tratava mais de um domínio direto, como na época da colonização, mas a pretensão ao exercício do poder não pode ser descartada. Ela está presente nas apreciações de viajantes europeus que vinham à América para realizar estudos da natureza e analisar, entre outros aspectos, a flora, a fauna, as formações geológicas, a geografia e a topografia. Nestas viagens, também acabavam por tecer comentários depreciativos em relação aos costumes das populações que iam conhecendo. A uma América com uma natureza vigorosa, corresponderia uma população com hábitos ainda supostamente primitivos e bárbaros. Apesar disso, muitos relatos são ambíguos, o que permite ao leitor encontrar, em uma mesma obra, por exemplo, descrições pejorativas sobre os indígenas e elogios aos seus feitos e construções.
Valorações, positivas ou negativas, lançam por terra a idéia de que os relatos são produzidos em nome de uma ciência neutra. Não é possível encontrar objetividade e isenção absolutas, visto que o discurso é construído a partir de um universo de valores arraigado na cultura de origem do viajante e também na sua subjetividade. Seja pelo estranhamento pessoal diante do novo, seja pelas conveniências políticas e ideológicas, o retrato da sociedade visitada também registra as pré-concepções que marcam o lugar de onde o viajante se experssa e os interesses que estão por trás de sua narração.
Um tipo relevante de viagem européia realizada à América no século XIX foi, como mencionado, a viagem científica. Em geral, estes viajantes integravam grandes expedições científicas financiadas por governos e academias de diferentes países europeus destinadas a investigar a natureza do globo terrestre em suas diversas dimensões. Esta prática vinha se estendendo desde o século XVIII quando, no bojo do movimento das ideias ilustradas, a ciência e a razão passaram a ser fortemente valorizadas como meio de desenvolvimento do conhecimento empírico e da busca da verdade, não mais sustentada a partir de premissas meramente abstratas. Mas os viajantes não foram apenas cientistas ou naturalistas. Uma parte considerável deles era composta também por mercadores e negociantes, que ligados a casas comerciais ou empreendendo projetos individuais, se dirigiam aos países recém-independentes da América, vendo aí potenciais locais de obtenção de recursos. Missões artísticas e diplomáticas também eram motivos de deslocamentos à América.
A propósito das viagens científicas é possível afirmar que um importante precursor foi o naturalista Alexander von Humboldt (1769-1859). Nascido em Berlim, provinha de tradicional família prussiana e frequentou a respeitável Universidade de Göttingen. Fez diferentes viagens de exploração ao longo da vida e publicou vários textos com os resultados de suas investigações.
Humboldt viajou à América entre 1799 e 1804, isto é, um pouco antes das independências. Sua inclusão aqui se justifica pelo fato de imprimir um novo sentido às viagens científicas. Sua forma de apreciação da natureza inovou as análises científicas precedentes, baseadas na História Natural e calcadas na realização do método taxonômico, que consistia na classificação das espécies naturais a partir de grupos ordenados hierarquicamente. Para Humboldt, era preciso não só classificar e ordenar separadamente as espécies, mas atentar para as relações destas com o seu ambiente, evitando-se assim uma percepção fragmentária da natureza; era preciso integrá-la num quadro mais amplo, numa totalidade, na qual deviam estar contemplados também os aspectos sociais e históricos, resultantes do fazer humano. Humboldt também entendia o fator estético - isto é, a forma de retratar a natureza e constituir a paisagem -, como parte do trabalho científico. Desta maneira, não dissociava a percepção que o viajante-cientista-artista tinha da natureza e a poética da qual se utilizava para representá-la. Com isso inaugurava uma nova maneira de descrever as viagens científicas: sem abandonar a ciência cultivou um estilo atravessado pela poesia e pelo sentimento.
Em sua viagem à América, Humboldt partiu de La Coruña (Espanha) e visitou regiões que equivalem aos atuais países de Cuba, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e México. Para transitar por regiões da América Hispânica, recebeu autorização real, que assinalava o propósito de aprofundar estudo sobre minas e realizar descobertas úteis para as ciências naturais. Não teve a mesma sorte com o governo português, que vetou entrada do viajante em seus domínios na América. Dentre os textos resultantes desta expedição estão, dentre outros, Viagem às regiões equinociais do Novo Continente; Ensaio sobre a geografia das plantas; Vistas das cordilheiras e dos povos indígenas da América e Quadros da natureza.
Depois de sua viagem à América, Humboldt radicou-se em Paris, produzindo aí parte significativa de sua obra. Em 1827 voltou para Berlim, onde residiu até sua morte. Os trechos selecionados de sua obra (DOCUMENTOS 1 e 2) são relativos à viagem que fez pelo caminho que havia sido dominado pelos Incas antes da chegada dos espanhóis. O primeiro trecho descreve o Monte Chimborazo, no Equador, acompanhado de uma imagem da mesma montanha; a outra passagem retrata o trajeto de Trujillo a Lima, no Peru.
A obra e o estilo de Humboldt impactaram diferentes viajantes que se dirigiram para a América Latina. A produção derivada das viagens é composta não só por textos, mas também por desenhos e pinturas. Aqui selecionamos um artista, cuja obra reitera, por meio das imagens, muitos aspectos do pensamento humboldiano no concernente à paisagem, mas o que acabou por destacá-lo foi o retrato dos tipos sociais. Este artista é Johann Moritz Rugendas (1802-1852), pintor e desenhista alemão formado na Academia de Belas Artes de Munique. Rugendas viajou em diferentes momentos pela América Latina. Esteve no Brasil entre 1821 e 1825, inicialmente integrado à expedição do Barão Langsdorff (este fora nomeado cônsul da Rússia no Rio de Janeiro). De sua passagem pelo país resultou o livro Viagem pitoresca através do Brasil. Depois de voltar para a Europa se instalou em Paris e trabalhou com Humboldt, que o ajudou a traçar um itinerário de viagem pelo México. Neste país esteve de 1831 a 1834, período no qual travou contato com naturalistas e intelectuais. Foi preso, condenado e obrigado a deixar o México por ter acobertado alguns liberais que aspiravam à tomada do poder. Partiu para o Chile, permanecendo no país de 1834 a 1842. Até 1845 excursionou ainda pelo Peru e Bolívia. Decidido a voltar para a Europa, passou antes temporadas na Argentina, Uruguai e Brasil, de onde partiu para a Alemanha, vivendo ali o resto de sua vida. As imagens selecionadas foram produzidas durante suas viagens pelo México e pelo Chile (DOCUMENTOS 3 a 5). No primeiro caso, selecionou-se uma paisagem e a representação de uma cena doméstica; no segundo, elegeu-se, do Album de trajes chilenos, publicado pelo autor em 1838, uma litografia que retrata uma figura oriunda das camadas populares, chamada de arriero (ou tropeiro).
O costume das viagens, a admiração e descrição da natureza e a produção de relatos não eram atividades exclusivas dos homens. Ainda que fosse menos frequente, as mulheres também viajavam. De acordo com a convencional divisão sexual dos papéis sociais, vigente no século XIX, as mulheres estavam destinadas aos afazeres domésticos, enquanto as funções públicas eram reservadas aos homens. É de se imaginar que isto restringia fortemente seu deslocamento; entretanto, não se deve levar ao extremo esta afirmação. Várias mulheres procuraram maneiras de expandir suas ações para além do âmbito estritamente doméstico e muitas vezes o fizeram buscando uma forma de atuação intermediária entre o público e o privado. A produção de diários, por exemplo, pelo seu caráter particular e individual, podia, sem tantas restrições, ser por elas explorada. Aquelas que tinham maiores pretensões intelectuais podiam tentar publicá-los, mecanismo que lhes permitia alcançar o domínio público. Foi o caso da viajante aqui selecionada, uma prolífica escritora de diários, a inglesa Maria Graham (1785-1842).
A autora viajou por diversos lugares e em diferentes circunstâncias. Dentre as viagens que resultaram em produção de relatos (diários), estão as realizadas à Índia (1808 a 1811), à Itália (1819) e à América do Sul (Chile e Brasil), entre 1822 e 1825. Maria Dundas - nome de solteira - era filha de um funcionário da Marinha britânica e seu primeiro marido foi capitão na mesma instituição. As viagens à Índia e à América foram feitas quando acompanhava, respectivamente, seu pai e marido, que estavam a serviço da Coroa britânica. Quando viajava pela América, ficou viúva pouco antes de aportar no Chile. Embora tivesse chance de retornar imediatamente à Inglaterra, preferiu passar uma temporada naquele país, entre abril de 1822 e janeiro de 1823, convivendo com chilenos e ingleses em Valparaíso e Santiago. No retorno à Inglaterra, passou pelo Brasil, onde foi convidada a ser preceptora da princesa Maria da Glória, filha de Dom Pedro I e da Imperatriz Leopoldina, tarefa que aceitou e empreendeu após breve viagem à Inglaterra, feita sob pretexto de preparar-se para tal atividade. Permaneceu no Rio de Janeiro até 1825 para então retornar definitivamente à Europa, onde dois anos depois se casou com Sir August Callcott, pintor pertencente à nobreza inglesa. Após o casamento, Lady Callcott viajou com o marido a diferentes partes da Europa, depois do que se estabeleceu em Londres, onde residiu até o fim da vida. O trecho aqui selecionado refere-se à viagem realizada ao Chile (DOCUMENTO 6).